Violeta

 

“Nossa vivência é como um bordado, vai sendo tecida. Este bordado é a nossa história, mas não bordamos sozinhos.”

Era outra aula às três da tarde. As palavras de Flávio deslizavam pela mente dela. Escorregando, perdendo-se em uma cena opaca. A sala de aula era fria, branca, quieta. A caneta na mão da menina balançava entre o dedo indicador e o polegar, pra cima e pra baixo pra cima e pra baixo.  Um comichão na orelha esquerda e o ato irresistível de levar a mão ao local e coçar.

Quanto descompromisso, quanta chatice. Sua cabeça baixou-se. O braço tocou o rosto. Sua blusa de mangas compridas, essa sim era tecida, pensou avulsa. De lã lilás e viva, aconchegante e quente.

Aqui ela ergue-se em si mesma. O que chamam distração.  Agora espojava-se em algodão. O que sentia sempre contrapunha-se pungentemente ao que sabia. A realidade palpável e visível escapava para um canto de sua mente, em segundo plano, e o que ficava era o sentimento. As cores. O abstrato. Tudo o que doía e queimava, e fazia com que ela baixasse os olhos e chorasse.  E por isso julgava-se estúpida e egocêntrica.

Violeta agora estava perdida em algum local de sua mente. Alisava o braço envolto em lã no rosto afim de sentir a textura. Fechou os olhos e permaneceu assim. Ninguém notou, ou ninguém chamou-a de volta.

Aqui, nesse pequeno instante, os olhos fechados, sentia as linhas tecidas na blusa, imaginando plantações altas de algodão, e o Sol. Todas as cores pululantes e agressivas desapareciam, todos os ruídos se distanciavam. A quietude da sala e suas paredes brancas sumiam. Ela caminhou a esmo em um campo enevoado. Tudo o que sentia era a maciez do tecido, acariciando-a. Tudo o que escutava era o atrito inofensivo entre lã e pele.

Àquilo, ela chamava paz.

 

Anúncios
Violeta

Signo de Água

Marina seguia uma rotina agora. Ela fazia as mesmas coisas todos os dias. E mesmo quando estava triste ou com raiva, cantarolava, lia, pintava, cozinhava, comia, assistia a filmes, como se nada estivesse acontecendo. Como se aquela serpente não estivesse gorda o suficiente, deslizando por dentro dela, comprimindo-se entre seus órgãos vitais, em direção a sua garganta.  O cabelo tingido de amarelo estava desbotando, e a raiz vermelha crescera dois centímetros a mais. Parecia grama ensanguentada no terreno solar.

_Marina, quer um suco?

_Marina, quer que ponha batatas no peixe?

_Marina, quer um sanduíche?

Bum!

Os olhos de Marina estavam bem abertos.

_Por que você faz tantas perguntas?

_Por que eu faço tantas perguntas?

O coração de Marina murchou um pouco. Não.Seja gentil, seja educada. Apenas…

_Por que essas perguntas toda hora? Faz outra coisa da vida!

A mulher entrara no quarto e ficou parada ali por um instante. O silêncio. Era dela aquela vergonha? Tinha para si mesma que a sua qualidade mais efetiva era a de absorver sentimentos e perceber a razão autêntica por trás de atitudes. Sequer era algo que fizesse conscientemente, mas analisava as pessoas o tempo inteiro. Sabia que quando eram simpáticos e gentis estavam sendo eufemistas. Tentando “quebrar o gelo”, como diziam.  Mas com o passar do tempo tendia a confundir tudo.

O que via era um retrato pintado atrás de suas retinas, um véu fino mas baço pintado pelo medo. Marina enxergava o que gostaria de enxergar, a sua ideia de como o mundo funcionava. Sabia das razões e dava-se ao direito de agir como uma primitiva, porque era humana. Apontava o que era natural como se isso eximisse qualquer um de culpa ou responsabilidade. “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” A resposta de Marina à isso era “foda-se”. Não negava a verdade por trás daquelas palavras, mas também não negava-se o direito de ser uma puta sem coração.

Marina viu sua silhueta pela visão periférica. A mãe caminhou para fora do quarto silenciosamente. Marina sentiu como se cada passo dela fosse um pouco menos de ar em seus pulmões. No momento pôs-se a pensar que aquela era uma existência infeliz, e que só fora tão grossa gratuitamente porque estava preocupada que a mãe continuasse ali, fazendo perguntas, mesmo depois que ela houvesse ido embora.  Com ela as coisas eram sempre assim. Havia algum mecanismo em sua mente que não funcionava corretamente, pois sempre que ela desejava fazer o bem, apenas dizia a verdade, de forma cética e racional.

Dizia o que sabia e o que era de fato verídico, a verdade, desnuda de adereços. Isso, porém, não ajudava as pessoas – ao menos não a curto prazo. Alguns conseguiam entender aquela ação benevolente, como ela incendiara por dentro o suficiente para ser capaz de dizer aquilo; mas a maioria das pessoas apenas achava aquilo terrível, bloqueava aqueles pensamentos vindos de uma criatura possessa pelo demoníaco, e ficavam longe. Todos faziam isso, menos aqueles que a amavam. Realmente amavam-na. Sua mãe era uma destas pessoas.

A sua cabeça estava baixa, o nariz quase encostando no caderno onde escrevia. O ventilador soprava seus cabelos, e ela sentiu-se cruel, mas ao mesmo tempo pensou que aquela cena ficaria perfeita em um filme. “Qual é o problema?” Estava sempre transformando todos em personagens. Já não mais vivia: atuava. Cada gesto e suspiro eram fotografados em sua mente mesquinha; ainda que ninguém estivesse filmando, fazia de sua vida um eterno drama. Era o que chamavam de “drama queen”.  Ou talvez fosse pior.

Lembrou do relato de um homem sobre seu filho. O menino era sedento por atenção. Quando estava sozinho, era tranquilo, quieto, mas bastava que tivesse uma plateia para que a criança começasse a encenar, agitando-se para todos os lados. Era dramático e teatral. Dissimulado. Esperto. Era como Marina quando era criança. Isso a fazia pensar se aquele menino transformaria-se numa forma tão doentia quanto ela, arrogantemente jogando sua cabeça para trás e sorrindo com desdém.

Desde a mais tenra idade ela demonstrara sinais da sociopatia. Quando trancara sua prima mais nova para fora da casa. Quando machucara gatos e girara-os pela cauda. Seja lá quem houvesse dito que a criança é como o homem primitivo, devia estar certo. O condicionamento a ensinara sobre o que era errado, e sobre o que era certo. E havia algo dentro dela – Piedade? Humanidade? – que impunha um limite. Porém, a natureza de Marina fazia com que ela machucasse, por desejo consciente ou inconsciente, tudo aquilo que mais adorava. Era sua forma de amar. Vê-los sangrando e sentindo dor, e implorando pela sua misericórdia.

Relampejaram na sua mente rapidamente tradições familiares, e ela pensou que a condenariam por tratar sua mãe daquela forma. Vociferariam com ela e a chamariam de ingrata e mal educada. E seria verdade, mas não toda verdade. Ela era maior do que isso. E agora ela não se importava com o que poderiam vir a pensar. Interessante…

Sua mãe começou a cantarolar. Sempre fazia isso quando se sentia triste, ou mal de alguma forma. Como se a expressão “quem canta seus males espanta” fizesse pleno sentido para ela. Aquilo fez com que Marina se sentisse ainda pior. A serpente se contorceu dentro dela, mas ela engoliu a saliva e continuou escrevendo.

O que era o amor?

Tudo o que Marina sabia era que não queria mais enxergar as pessoas. Enxergara-as por muito tempo, por tempo demais. Mas alguém já a enxergara? Com exceção dela mesma… Sua visão dos outros era tão deturpada quanto a que os outros tinham dela, mas ao menos ela gastara seu tempo, sua preciosa essência com aqueles zé-ninguém. Agora estava corroída. Levava uma pedra no lugar do coração.

Marina era agora uma puta sem coração.

E não queria sentir mais nada. Não queria enxergar os seres humanos além de sua pele e carne. Eles simplesmente não importavam mais para ela. Eles a compreendiam erroneamente, eles a julgavam fria e estúpida, e ela simplesmente não se interessava mais por eles. Ver que isso era verdade, que ela se transformara naquela pessoa insensível e dormente a fazia querer chorar.  Suas lágrimas, porém, pareciam ter secado. Se chorasse agora, arranharia as córneas e choraria sangue ao invés.

Pensava que boa parte daquilo poderia ser resolvido com um abraço. Um abraço quente e caloroso, sem palavras ou perguntas. Apenas dois braços segurando-a e confortando-a, sem julgamentos. Mas não seria isso também egoismo?  E isso era tudo o que havia feito até hoje. Ela sabia que não era, que já havia amado sem esperar nada em troca, desarmada, – “olha só que bem isso me fez” –  mas se aquela era a verdade que surgia em sua mente, a de que sempre havia sido egoísta, devia ser porque era a parte que mais pesava nela. Quem sabe fosse até verdade.

A pequena Marina nunca gostara de dividir suas coisas, nem suas pessoas. Era possessiva, e apenas dava procurando receber em troca. Aquele pensamento veio facilmente, sem desvios, e isso assustou-a. Porque era verdade.

Um fiozinho solto entre os eletrodos no seu cérebro causou um pequeno curto circuito e Marina viu-se convulsionando internamente, escorregando entre fantasmas e corpos. Sentia o gosto ruim – agora ruim, antes adorado – de nicotina e conhaque barato. Uma língua úmida e indesejada chupava seus lábios, saboreava seus seios, queimava seu pescoço.  “Ew.”  Seus olhos fechavam-se com força e seu rosto contorcia-se inevitavelmente numa máscara de desprezo e nojo. E seus pensamentos viajavam para outro lugar, à procura de outro corpo, e de outro nome. Outro idiota que não lhe daria o suficiente, nem mais do que isso.  Um suspiro de exaspero libertou-a daquele fantasma. Tivera transas melhores.  W., na casa dele, numa terça á tarde. Estava terrivelmente frio e eles foderam o resto do dia inteiro, até a meia noite. Em ponto. Ainda podia sentir sua coluna deslocar-se um pouco sempre que lembrava de como W. fizera seu corpo vergar-se num arco. Deliciosamente, uma vértebra estalara.

Fora uma boa foda. Nada que lhe interessasse hoje, nada que repetiria. Havia sido diferente com W. Ela era diferente na época. Aspirava uma doçura e fragilidade genuínas, despertava o cuidado, o amor. Hoje Marina era uma pessoa ácida, escura. Ainda frágil, mas isso mesclava-se ao rancor e à frustração que sentia.  Os olhos de Marina estavam bem abertos. Olhos de mangá, em chamas, grandes, escuros. Mas seu terceiro olho estava fechado; ela estava cega.

Ela estava queimando, todo seu ciclo natural desfeito e subvertido.  Era um peixinho num aquário imenso em combustão.  Seu corpo estava doente. Mais magra do que jamais fora. Ela trazia um esgar nos lábios, algo que se aparentava a um sorriso, mas era só um ricto da boca. Seu tornozelo esquerdo trazia um inchaço incomum no tendão, onde o torcera. Ela se arrastava por ai em uma camisa velha, os olhos mortiços mas com um brilho irreconhecível à luz diurna.

E ela chorava. Chorava, chorava, chorava. E suas lágrimas, por mais constantes, não conseguiam apagar aquele mundo em chamas.

Signo de Água