pure morning

Eu só tive tempo de avistá-lo fugindo quando ele já estava muito longe. Nós seres noturnos captamos algumas das reações mais estranhas, e existem algumas coisas que só podem ser vistas através das luzes lúgubres da madrugada… Coisas como pensamentos que fugiram, sorrateiros, e escaparam para os fundos da mente. Coisas como algum medo ou algum resquício de tristeza ou de felicidade ou de esperança. Todos os restos estão aqui, conosco. Na madrugada…  Dentre as estrelas salpicadas no papel alumínio, vislumbres de dentro de uma caverna para a única luz verdadeira, que brilha lá fora. Lá fora, não essa que brilha nos meus olhos e reflete-se em algum lugar aqui que minhas retinas não alcançam. Eu não me alcanço aqui. A coragem derrete como ouro em um forno quente, tão preciosa quanto. Resta-me o medo; ele corre em círculos, um menino brincalhão, ele corre e ri porque é vivo e porque pode. Eu sei que posso, mas o medo me diz que não, que só ele pode, e segue correndo, tão vivo… Por que tão vivo? Por que tão amarelo… Eu sempre preferi azul. Cinza, preto. Cores mais simples, que não saltam tanto aos olhos.  Procurei, irresistivelmente, com um olhar furtivo por sobre o ombro, e ele ainda corria. Não o medo, mas ele. <em>Ele</em>. E eu não sabia mais se era ele sozinho ou um anagrama com as iniciais de cada cor que ele trouxera e carregara consigo. Antes era como algo que vemos e então não está mais lá, algo que vemos aproximando-se, e então desvia-se e segue por outro caminho, e nossa exultação é substituída por perguntas. Mudou de caminho por que? Fui eu quem fiz isso? Mas como pode ter sido eu, se foi ele quem estava lá, virando aquela rua… Mas talvez fosse mesmo verdade.  Embora eu sentisse que eu também estava virando aquela mesma rua, não sentia-me eu. Não havia espaço para mim ali, e embora pudessem muito bem ser as minhas pernas a guiar aquela trajetória, minha alma estava acorrentada em outro lugar no tempo. Eu não conseguia… Como eles dizem mesmo? Seguir em frente! Não era mais uma rua, eram as curvas sinuosas do escuro do meu quarto. Não era mais triste, não haviam mais resquícios de paixão, ou qualquer coisa que me fizesse queimar e suspirar, mas ali estavam todas as cinzas. Ainda assim, o Sol escapava pelos buracos no alumínio, feitos pelas ventanias, e eu reencontrara a mim mesma. O vento sempre soprava muito mais forte na minha janela, uivando através das frestas. Minha coragem ia aos poucos secando ainda sem forma, para volta e meia derreter novamente. Eu ia e voltava, sem linearidade, e perdia-me as vezes.  Mas eu certamente nunca mais viraria aquela rua novamente, a não ser nas minhas abstrações, entre a luz mortiça e azulada, confortavelmente clara e pura. Isso me fazia sorrir com alívio. O medo cruzava suas pernas e sentava-se entre meus joelhos magros, e eu o encarava bem nos olhos, e sorria. Minhas estrelas ainda eram de vidro, mas a luz que refletia-se nelas era real. Os restos seriam, hora ou outra, delicadamente postos em um quadro e emoldurados em bonitas molduras, então eu nunca teria medo de olhar para eles outra vez. E os quadros balançariam nas noites de ventania, sim, mas seriam apenas um marulhar. E não um presságio. E eu… Eu ainda seria livre. Eu seria livre, ainda.

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