Luna

“Você é muito chata”, ela dizia para si mesma. “Pare já com isso.” Mas os pensamentos continuavam desorganizados. Pousou a cabeça no livro, o qual não lia, e bufou. Os cabelos encaracolados e vermelhos cor de marte desenhavam caracóis nas páginas. Seus olhos estavam fechados e ela preguiçosamente mordia a ponta do lápis, já bastante marcada.

Luna suspirou. Sentiu-se amaldiçoada; por Deus, pelo destino ou talvez pelos seus olhos sanpaku. Sempre deduziam que ela estava muito cansada para conversar, pois seus olhos denunciavam sono e desinteresse. De certa forma aquilo era verdade. Ela não gostava de gastar muito do seu tempo com pessoas. Preferia música e tomar cerveja sozinha enquanto assistia a um filme.

Houve um dia em que ela decidira ser sociável durante uma semana. Sair, e conversar e rir. Beber com outras pessoas e escutá-las. Até chegou a beijar uma garota chamada Katlyn. Ela não era boa com nomes e fora tudo muito superficial. Mas ela recordava-se bem do perfume da garota, e de suas sardas e cabelo chanel. Ela era genuinamente adorável. Mas ao fim da semana, Luna estava exausta.

Então ela passou duas semanas incomunicável, apenas respondendo a perguntas no trabalho e quando o fazia tentava ser o mais breve possível. Todo o silêncio deu-lhe tempo para refletir. Ela avistava a pilha de livros se acumulando, mas não conseguia lê-los; então começou a sentir como se um fantasma estivesse sugando sua alma aos poucos. Sentia-se vazia e triste, e não sabia dizer por que. Escutava suas bandas favoritas, mas não conseguia desconcentrar-se daquela alguma coisa que a corroía, nem conseguia cantarolar e fechar os olhos e sentir-se bem.

Na quarta semana seguida ela notou que o jeans que usualmente usava estava mais folgado, e seus braços mais finos. Foi quando começou a pensar e conjecturar coisas que nunca haviam lhe ocorrido antes. Suicídio, morte de pequenos animais indefesos, morrer enquanto dormia. Um dia estava cortando cebolas e sentiu a faca escorregar no seu dedo, mas não importou-se com a dor e ficou ali parada por longos dois minutos, apenas observando o sangue escorrer.

Ela resolveu consultar um terapeuta. Ele disse que ela estava depressiva e a encaminhou a um psiquiatra. Mas ela decidiu não ir. Saiu da clínica e foi direto a um bar. Comprou cigarros, whisky, e balas mentoladas. Sentou-se num banco na praça. O sol estava se pondo. Ela ergueu o nariz, fechou os olhos, sentiu o ar fresco invadir seus pulmões, e o Sol já indo-se só alcançava o topo da sua cabeça.

Pela primeira vez em um mês ela sentiu-se confortável para sorrir. Seus cabelos ondulavam com a brisa suave e sua respiração era suave. Todos os maus pensamentos voaram para longe. No caminho para casa, comprou um colar artesanal, com um pequeno cristal pendurado, sorriu para o vendedor. Ele tinha olhos preguiçosos também. Chegou em casa rindo por dentro do diagnostico do terapeuta. Arrancou as roupas e dirigiu-se ao banheiro. Ligou o chuveiro. A água quente escorria pelo seu corpo.

Mas algo estava estranho. As paredes do banheiro pareciam sufocá-la. De fato, sentiu-se sufocar. Sua respiração tornou-se ofegante, e então veio. Um grito. Luna gritou e correu para fora, para fora de casa, nua, para o quintal. Mal conseguiu destrancar a porta. Ficou ali, em estado catatônico. Apenas sua respiração movia seu corpo. E então ela desabou. Lembrou-se da menina com sardas e começou a arranhar o rosto, enquanto chorava compulsivamente.

Deitou-se, ou deixou-se cair. O que estava acontecendo? O que estava acontecendo? Ao longe um pássaro gorjeou.

 

 

No dia seguinte acordou febril e sentindo-se fraca. Depois de comer algo, conseguiu ligar para o escritório e avisar que não poderia ir, pois estava doente. Então sentou-se à mesinha em seu quarto e folheou um livro ali perto. Só então notou que ainda estava nua, mas não incomodou-se em vestir algo. Apenas suspirou e deitou a cabeça no livro.

O dia acabava de raiar. Ela virou-se devagar na cadeira e fechou os olhos. Luna deixou-se banhar pelo Sol, todo o corpo tenso. Respirou fundo, e uma única lágrima escorreu pela sua face. Ela fez menção de falar. Mas tinha um nó em sua garganta. Naquele momento, sua única companhia era uma lagartixa no teto. Então ela baixou a cabeça, e chorou, até que o cansaço a abatesse e ela voltasse a se debruçar sobre o livro.

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