Há sangue

De onde eu venho existe uma colina apelidada como triste onde banham-se desertores num lago de sangue. Eles gritam “VIVA Á LIBERDADE!” enquanto submergem e voltam a tona com peixes mortos entre os dentes.

De onde venho há flores que brotam em telhados desbotados. O barro desfaz-se com o tempo e sobram apenas os signos impresos pelo olhar das estrelas. Assim formasse um teto de flores regido pelo meu Sol em Júpiter.

No lugar de onde venho não existem valsas. Então as crianças cantam tristemente enquanto resgatam as raízes no fundo da terra dura e laranja. E fazem instrumentos com palha e coco.

É um vilarejo abandonado em uma colina triste, o lugar onde minha mãe teve as primeiras dores de parto. Não há nenhum entretenimento além do barulho do vento nas tardes de inverno, que imitam assobios de pássaros ao passar pelas frestas da janela velha.

Não há lobos ou raposas e todos são tranquilos e desertores. Não há dor. Nem ranger de dentes. Há apenas sangue.

Há sangue

o grito

estou com raiva, e como sempre faço quando tomada pela cólera, se não cedo à loucura, cedo à escrita. com  meus dedos traço caminhos ermos em competição comigo mesma, com minha essência, com o sonho mais terno que eu temo mostrar, dar meu leite para que por baixo de camadas de tecido, crie vida. tenho dentro de mim um monstro. ele deleita-se com minha tristeza, conversa com meus fantasmas e faz de mim uma garotinha nervosa e trêmula. não posso, ou, pior, não consigo confrontá-lo.

nunca fui boa com poemas, por isso minha alma recita versos que desde minha mais tenra existência coexistem com meus pulmões e fazem minhas vísceras sangrarem. estes versos, nunca fui capaz de pronunciá-los em voz alta, e sempre que tentei fazê-lo, acabei com os pulsos listrados, sangrentos. minha voz não existe. eu a desenhei com giz de cera e com cola grudei os adjetivos que forçosamente saem e atritam-se aos meus dentes.

eu estou cansada, pesam-me nas costas todos os anos não vividos e toda dor que abracei, todas as pausas e contrações dos intestinos. toda música que vive dentro de mim arranha minha pele e rasteja entre meus orgãos. e nem dói mais.

esse é o meu grito. minha existência é falha, e faltam letras no alfabeto para descrever essa bagunça. gritam- me ordens, fazem-me de capacho, e esperam que eu mostre os dentes. ao invés, minha boca deforma-se num esgar infeliz. eu não existo. fui inventada por alguma criança que não sabia falar. meu coração aprendeu a bombear todo sangue de forma errática, por isso vivo irritada. por não ter uma voz que suporte o grito que trago dentro de mim.

o grito

The downfall

Eu conseguia sentir minha alma conectada à dela. E era como se a cada puxavão daquela linha invisível que nos unia, eu sangrasse um pouco mais. Doía. Eu me recordava de tê-la deixado entrar mas quanto a mantê-la ali eu não tinha nenhum poder sobre isso. Eu não podia prendê-la. Seria como prender a mim mesma. Eu sentia sua tristeza; era como morder algo muito amargo. Eu tinha medo das suas respostas, então eu deixara de fazer perguntas.

Seus olhos pequenos me assombravam a noite. Era tudo que eu via, mesmo com os olhos fechados. Sua boca era a única que eu gostaria de ver esboçando nem que fosse um esgar. Beijando minhas cicatrizes e me trazendo de volta à vida; eu ansiava por respirar o mesmo ar que ela.

Mas eu estava cansada. Doía terrivelmente não poder tê-la. E enquanto minhas lágrimas secavam na minha camiseta, eu pensava numa maneira de varrê-la da minha vida.Soprá-la para longe; mas tudo que eu enxergava era o seu sorriso…

The downfall