idk

Sobre o amor: Não sei até hoje da linha que separa o amor da obsessão, depois de três anos amando a mesma pessoa, e sentindo-me agarrada a isso como alguém a beira de um penhasco agarra-se a uma corda. Quando sinto esse sentimento pulsar dentro de mim, sinto-me presa a isto. E alguns dirão que amor é liberdade. Então o que sinto seria classificado como obsessão? Que saco, né. Temos essa mania chata de rotular sentimentos. Isso causa um imenso transtorno porque se eu sou obcecada por ti, de certa forma isso inclui amor, mas quem sabe um amor doente. Um amor que não pode ser mitigado com um “eu te amo”, mas precisa ser recordado constantemente. Um amor que precisa de alimento a todo momento. Isso é a obsessão, eu acho. Mas posso não saber sobre que merda estou falando.

Anúncios
idk

sobre acordar cedo

Pode ser que estranhem esse título. Mas é exatamente sobre o que eu quero falar. Imagine que é noite de sexta-feira. Você quer ficar assistindo filmes até tarde, desenhar, pintar, fazer sexo a madrugada inteira ou sair para uma festa com os amigos. Mas não sente que seria O.K. fazer isso. Por que? Porque no dia seguinte você precisa acordar cedo!

“What a conundrum.”

Bem, isso sim é algo que você pode chamar de horrível. Acordar cedo quando você gostaria de mais umas horinhas de sono. O sono da manhã parece sempre irresistível… Seus olhos não querem abrir e saliva escorre pela boca, ah, que delicia! Mas então o despertador toca e tudo isso é maculado. Porque você precisa levantar. ODEIO ISSO! Agora mesmo estou em dúvida sobre ficar acordada até tarde vendo filmes ou desenhando – sinto-me especialmente inspirada hoje – ou dormir cedo, porque amanhã tenho que estar de pé
às 6h00min.

Ah, dane-se. Este não é um tema muito interessante sobre o qual se escrever. Ou talvez seja como eu escrevo isso. Enfim. Só queria reclamar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sobre acordar cedo

Vivemos vidas miseráveis. Buscando por amor em lugares obscuros. E esquecemos de como é ser feliz. Só queremos ser amados por aquela pessoa. Só queremos que ela olhe para nós um dia e as estrelas brilhem e ela perceba que fomos feitos um para o outro. Nós buscamos por amor em lugares obscuros. Onde não há luz, e seguimos cegos, apalpando espinhos, sangrando, até estarmos tão acostumados  com a dor que já não nos importamos.

Carma

Ela havia acabado de colocar o sutiã e eu já sentia saudade da visão de seus seios pequenos. Ela alonga-se e então senta-se na cama. O pote de sorvete está na mesinha de cabeceira. Ela acende um cigarro, joga o isqueiro no chão e então apanha a colher também na mesinha. Mete no pote de e engole uma quantidade generosa de sorvete de amendoim – seu favorito.

_Você ainda vai acabar morrendo.

Ela bufa, com desdém. Claro, ela não se importava com a morte. Talvez as vezes até a desejasse. Todos nós secretamente desejamos isso uma vez ou outra. Maritza larga o cigarro no cinzeiro, e se estica para me dar um beijo. Seus lábios tinham gosto de nicotina e amendoim.

_Ainda tenho alguns anos pela frente._ela diz, e dá um sorriso. O tipo de sorriso que é capaz de congelar e acender seu coração ao mesmo tempo.

_Sabe o que eu odeio?_ela pergunta, e não espera pela resposta._A carência. É horrível. Você se humilha e se torna frágil.

_Não vejo muito qual é o problema. Fazemos isso o tempo todo.

_Está louco?_ Ela se levanta e apanha a calcinha no chão. Vermelha. Da cor da paixão. Da cor do meu amor por ela. Vesti-a, e eu saboreio aquele momento efêmero mas ao mesmo tempo que me parece atemporal.

Carma

universo feminino em cores

Ela passou a mão direita pela sua cona, distraidamente. Sentiu o sangue do seu período dissolver-se e escorrer pelas pernas. Estrias, axilas e pernas por fazer. Detestava depilação. Para ela era só mais uma forma de opressão imposta as mulheres. Algo construído socialmente, para fazer com que mulheres acreditassem que eram mais bonitas e desejáveis para os homens se não tivessem pelos. Bom, surpresa: mulheres tinham pelos.

Maritza parecia ter saído de um filme alemão noir. Tinha olhos brilhantes e oblíquos, sobrancelhas arqueadas, cílios grossos e grandes, e uma boca pequena e bem delineada que poderia ser engolida em um beijo. Não era magérrima como ditava as revistas de moda. E pouco se importava com isso, embora sentisse um pouco de inveja de sua prima Dorien e de seu corpo esquelético sempre que esta a visitava. Nessas ocasiões Dorien dizia: “você perdeu algum peso”, o que nunca era verdade. Mas Maritza não ligava para isso.

Para ela o corpo feminino deveria ser cultuado. Ela acreditava que havia algo de místico na mulher. Ao mesmo tempo em que enxergava o quanto seu gênero era oprimido e vítima da misoginia diariamente. Quando isso a incomodava muito – e costumava incomodar bastante – ela misturava cerveja com sorvete, fazia uma batida, colocava meias grossas de lã, e assistia ao seu filme favorito. Death Proof. Um filme do onde quatro garotas sozinhas enfrentam um psicopata machista e vencem no final. As chances de isso acontecer na realidade eram quase nulas, mas por isso ela adorava tanto assisti-lo. Fazia-a sentir-se menos impotente. Era fantástico!

Martiza apanhou a toalha e enrolou-a no corpo, sem enxugá-lo. Olhou-se no espelho. Estava embaçado. Fez um circulo perfeito bem no meio do vidro e pôs-se a observar-se. Parecia cansada. Mesmo depois de um banho quente. Com olheiras arroxeadas, e seria aquilo uma ruga? Bem entre as suas sobrancelhas…

Vestiu-se apressada. Menos a calcinha. Achava que a coitada da sua vagina merecia respirar um pouco.  E ela detestava usar roupas de baixo.

Dirigiu-se a cozinha, onde encheu um grande copo de leite e bebeu-o rapidamente. Pensara que o banho quente aliviaria aquela tensão que vinha sentindo desde a noite do dia anterior, mas bastara sair do banho para que a ansiedade atingisse seu estômago como um soco. Talvez não devesse ter se vestido tão depressa.

Mas no fundo sabia que esta não era a razão. Na verdade, não sabia a razão. Havia todos os motivos do mundo para que tudo estivesse perfeito. Respirou fundo. As vezes isso ajudava. Colocou-se na ponta dos pés e espiou por sobre a pequena janela que havia na cozinha. Lá fora o silêncio reinava. O clima era ameno. Ela apreciou a brisa leve acariciando sua pele.

Uma coceira na perna. Fez menção de coca-la, mas desistiu.

Fazia tempo que não raspava as pernas. Não só porque considerava uma forma  de opressão, mas porque sempre que as raspava sentia uma terrível alergia. Suas pernas tinham cicatrizes de coceira por todos os cantos.

Maritza se deixou despencar. Suas costas deslizando pela parede até atingir o chão. Ficou ali por um bom tempo, pensando sobre teorias conspiratórias e sobre o resultado do exame de sangue que teria que buscar dali a dois dias. Isso a deixava aflita. Não sabia por que.

O vento assoviou pela janela.

Ela cantarolou Nina Simone baixinho. “Ooo-oh child things are gonna get easier…” e então acabou por debulhar-se em lágrimas. Em um choro longo e quieto. Pensou sobre as feridas abertas que ela não deixava a pele cobrir e cicatrizar. Sobre como sentia-se frágil diante da vida, como uma pluma ela sentia que ia sendo levada pelo vento. Pensou sobre Marcio e sobre como o amava e sobre como sentia-se patética por isso. E imaginou se em algum momento ela ao menos cruzava seus pensamentos. 

Neste instante todas as promessas que fizera a si mesma sobre não se auto-denominar patética por amar esvaiam-se com as lágrimas. Arranhou seu braço esquerdo, já marcado, com toda a força, e observou o sangue despontar em alguns lugares. Pequeninos pontos vermelhos. Seu peito doía e palpitava como se seu coração fosse sair pela boca. Os arranhões pareceram mitigar a sua dor.

Depois de um tempo, sem que notasse, já se encontrava deitada no chão. O rosto molhado e o nariz escorrendo. Por que a vida tinha que ser tão incrivelmente estranha? Depois pensou que não era a vida que era estranha, mas sim ela. Quando parou de chorar ainda se encontrava no mesmo lugar e já passara da meia noite. Acabou por cair no sono ali mesmo, no chão frio.

universo feminino em cores