As pessoas não vêem sentido em muitas coisas. Isso não significa que eu não tenha que achar algum tipo de sentido em determinado comportamento, etc. Na verdade, acho que essa história de tentar encontrar sentido nas coisas é bem chata. As vezes nós só queremos nos expressar e é isso. Um cara que mata outra pessoa está expressando sua raiva, seu rancor, ou seja lá o que for. Embora seja algo ruim, não deixa de ser uma forma de expressão. Ai, as pessoas se perguntam: qual o sentido nisso? Por que ele fez isso?

Enfim, é tudo muito enfadonho.

O nervosismo da existência


Estava tão nervosa que tomei o chá em grandes goles, sem saborear o sabor da erva-cidreira. O líquido morno desceu pela minha garganta e me deu uma sensação de alivio, ainda assim.

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Quando eu fico nervosa e ansiosa eu gosto de conversar com desconhecidos. Isso me distrai dos meus problemas. Talvez seja um pouco egoísta, mas não me culpo por isso. Então hoje enquanto esperava o ônibus e fotografava uma árvore recheada de flores, eu puxei conversa com um senhor, que elogiava a árvore, dizendo o quanto ela estava bonita. Então eu respondi que realmente estava muito bonita. E ele me contou que costumava ter um ipê em sua casa também, mas ele havia viajado e quando retornara haviam cortado o pé de ipê.

 

Depois conversei sobre as chuvas das águas, como são conhecidas as fortes chuvas que se seguem no fim do ano aqui na Bahia, com outro senhor. O ônibus então veio, e eu me despedi com um “tchau” simpático. Mas acho que o senhor não escutou.

 

Eu vi o reflexo do meu rosto num espelho, quando ônibus fez uma parada, e foi como ver o rosto de outra pessoa. Foi como olhar nos olhos de uma estranha… eu me senti um pouco esquisita com isso. Mas não dei muita importância no momento. Nos últimos dias eu andava mesmo meio aérea, como se minha mente estivesse em algum lugar distante e eu me encontrasse em estado de negação.

 

A ansiedade mostrava suas garras e arrancava pedaços generosos da minha alma, e não se preocupava em costurá-los de volta. Apenas os deixava ali, a sangrar, até que a hemorragia viesse e eu explodisse em sangue e tristeza. Era essa a minha sina? Eu me questionava todos os dias. Era essa a minha sina? Sofrer, sofrer de forma egoísta, fazer festas de auto-comiseração e observar enquanto os outros me observavam com um sentimento velado de pena, porque eles tinham paz? Porque eles não sentiam o que eu sentia? Porque era privilegiados. Ah, não, nisso eu não podia acreditar. Todos tinham seus demônios.

 

Mas constantemente eu sentia-me incompreendida. Sozinha. Deslocada. O tempo todo, na verdade. E me perguntava qual seria a resposta. Onde estaria o fim do meu sofrimento. No amor que eu não conseguia sentir? No amor que eu dava? No amor que eu não recebia? Na aceitação da dor? Senti minha cabeça girar e fechei os olhos por um momento. Toda essa merda não servia de nada. De nada. Eu estava fadada a viver sem amor? Era essa a minha maldição? Não conseguir sentir-me amada?

 

Na sala o relógio tiquetaqueava. E minha cabeça martelava. Eu não tinha as respostas. Ninguém tinha. Nenhum ser humano. Estávamos todos perdidos.

O nervosismo da existência

About blackberry juices and old buildings

_Lerei assim que chegar em casa.

É claro que ela não leria. A menos que ela tivesse dinheiro suficiente para comprar o livro. Se não tivesse, teria que economizar, o que levaria uma quantidade razoável de tempo. Ela só falara aquilo impulsivamente, porque é o que as pessoas dizem quando outras tem algo que elas não tem mas querem ter.

É a famosa ânsia humana, a cobiça. Elevei o queixo e sentei-me mais ereta, como que para me impor, e dizer que não estava nem ai para ela. Elena deu um trago no seu cigarro, que já estava quase por findar-se, e me olhou atentamente, quase como se intendesse perscrutar a minha alma. Não pude impedir o riso que irrompeu de meus lábios.

_O que foi?_perguntei tentando conter-me, ciente de que aquele comportamento não era nada adequado.

_Você está com raiva de mim.

Quase cuspi o suco de amora. Desta vez não conseguir conter o riso, e ri até que não houvesse mais motivos para isso, até que se esgotasse em mim a última gargalhada. Então, respirei fundo, pois ficara meio que sem ar, e meneei a cabeça, preparando-me para um longo sermão que calaria a boca de Elena e provavelmente a faria levantar-se e ir embora. Eu adorava esses momentos! Mas então pensei que seria deveras maldoso fazer isso, ainda mais com uma pessoa com os transtornos de Elena. Então me recompus e tentei falar o mais branda e sinceramente possível:

_Eu não estou com raiva de você? Por que estaria?_ Fiz uma pausa e esperei que ela pensasse sobre a questão sozinha. Realmente, não haviam motivos coerentes para que eu estivesse irritada com ela. _Desculpe-me se passei essa impressão. Não foi de propósito. As vezes tenho certa dificuldade em me expressar e socializar. Não sou normal.

Esta última inferência jorrou de meus lábios como a água que jorra de um chafariz; não pude impedir o pensamento de que aquela era a questão que mais me preocupava ultimamente. Eu media meu grau de “normalidade” com o de outras pessoas, ignorando conscientemente o fato de que não existia tal coisa. Comumente isso fazia com que eu me sentisse estúpida e retrograda.

Elena continuou me encarando, como que à espera de que em algum momento eu fraquejasse e dissesse: “Ok, eu estou com muita raiva de você, vá embora.” ou algo do tipo. Depois de algum tempo ela desviou o olhar e colocou-se a fitar o espaço aberto. Algum lugar no espaço entre dois prédios abandonados bem a nossa frente. Terminei meu suco de amora, que aliás estava terrivelmente doce. Do jeito que eu gostava.

_Eu acho que estou apaixonada por você._Elena disse, e ela estava chorando. Foi uma boa coisa que eu já tivesse terminado meu suco de amora, ou com certeza teria cuspido tudo naquele momento. 

Eu me gabava de ser difícil de ler e de nunca ser pega de surpresa, nunca! Eu sempre tinha uma carta na manga, algo que aprendera com o meu pai. Mas, desta vez, acho que o que eu sentia estava estampado de forma bem clara em meu rosto.

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Tattooed woman, I miss you

Hoje eu pensei em você de novo. Em como seu sorriso triste consegue disfarçar tão bem os sentimentos que você carrega como bagagem dentro de você. E pensei sobre nós. E fiquei triste por não poder falar com você, nem demonstrar meu afeto. E desejei que um dia eu pudesse te mostrar esse texto e dizer: “ei, eu lembro de você. Você não era a menina com o cabelo loiro e roxo, aquela que costumava chorar com canções.” E você diria sim, e nos abraçariamos. E eu diria que sinto muito. Por ter sido medrosa e covarde. E você diria que eu não fui covarde, mas eu fui, mulher, eu fui. E eu sinto muito por isso. Mas o tempo há de passar, e nos encontraremos juntas de novo. Como as palmas de nosssas mãos tatuadas com tinta na minha parede.

Tattooed woman, I miss you