O intenso dizer do adeus

Em que imensa loucura desembarcou nossa mente, a ponto de questionarmos se há em nós algum traço dos amantes deixados para trás.  A ponto de perguntarmos a nós mesmos se sentir, ou não sentir, nos faz loucos. Se o que nos faz loucos é o hiato ou o crescendo de um sentimento que está dentro de nós,  enterrado, desde criança. Ou se somos os únicos. E nunca somos. Há sempre outros vãos e outras pernas a embarcarem nos fios trançados pela vida ao longo do caminho. Não somos os únicos. Mas estamos sozinhos. 
E chamamos por liberdade, por paz, por ódio, por amor. Mas esquecemos do que é sentir a mente latejar, com o fogo da memória acesso, juntos de mãos dadas o medo e a tristeza de não poder mudar o que um dia foi feito com mãos sujas de sangue. Há coisas que não podem ser. Mas são. Quem é o objeto parado ao lado do camburão e o que a polícia estava fazendo ao desprezar quem nasceu em tão fino leito?

Há coisas que você destrói com as próprias mãos. Há coisas… Há coisas… Há.

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O intenso dizer do adeus

aBOUT SADness and REality

 

Havia algo de triste em Marina. Em seus trejeitos e meneios de cabeça. Ela dançava diferente, com suas meias três quartos e coturnos desgastados, ela movia-se como um fantasma, balançando seu corpo em compasso com a música. Mas não saia do lugar. Nunca, nem na vida. Estava estagnada e não conseguia chorar. Se chorasse ao menos navegaria na enxurrada de lágrimas e iria para longe dali. Mas ela só sabia dançar. E tropeçar. E doer.

aBOUT SADness and REality

As almas dentro de mim gritam teu nome.

Dentro de mim há um acervo. Dentro do acervo há uma menina. E dentro da menina há uma alma. E dentro desta alma há outra alma, que arranha e tosse e se inquieta. E no fim morre. Mas sempre volta a viver. De alguma forma misteriosa que eu ainda não desvendei, ela sempre volta a viver. Seus dedos descarnados percorrem meu rosto em busca de semelhanças e sinais de que eu estou viva. Mas tudo que eu sinto é o teu rosto.

As almas dentro de mim gritam teu nome. Como algo doce. Você derramou dentro de mim algo que me faz engasgar de abstinência e vomitar toda comida que tento digerir. E quando eu fecho os olhos eu sinto a tua respiração; perto do meu rosto, eu sinto tua respiração irregular e quente e meus olhos marejam quando os arregalo de terror, porque você não está ali.

E eu sinto a tua falta a cada momento, como se uma parte de mim tivesse fugido ou sido arrancada quando você foi embora. É uma dor engraçada porque nunca nos vimos, nunca nos tocamos, nunca compartilhamos a mesma cama, mas eu te vejo bem na minha frente todas as vezes em que fecho meus olhos. E isso, amor, é o suficiente para me fazer chorar.

Eu gostaria, só as vezes, de conseguir te fazer ser apenas meu. O meu instinto egoista gostaria disso, de te ter só para mim. De ao menos poder segurar a tua mão, sentir a tua pele, salgar o meu mar com as tuas lágrimas. E, quem sabe assim, sarar as feridas com o sal na ponta dos teus dedos.

Dentro de mim há um acervo. Dentro do acervo há uma menina. Mas isso não importa mais. Há teu reflexo no espelho, mas tudo que eu fiz foi prostrar-me diante dele e morrer outra vez. Esta pequena alma machucada, que dói, e grita, e se retorce. E renasce a cada manhã. Apenas para te sentir de novo.

 

As almas dentro de mim gritam teu nome.

Uma festa para o céu escuro (tão escuro…)

Cravo as unhas com força na pele. Sangra. Minhas unhas afiadas e longas. Meu rosto desfigurado e encoberto por um véu de dor, solidão e medo. Olhos fechados para não sentir o mundo doendo. Olhos fechados para evitar a lembrança de que estou acordada. E se, por algum motivo, essa for a minha sina? Não. Não, não, não. Você não pode duvidar disso. Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem.

Enrolo um cacho entre os dedos magros, abro os olhos com o queixo erguido, assim a primeira coisa que eu vejo é o céu. O céu. As vezes, quando a desesperança lateja forte dentro de mim, eu penso que estou perdendo tempo em olhar para o alto. Deveria olhar para o chão, eu penso. Mas mesmo quando olho para o chão, eu tropeço. E os machucados que tenho e as escoriações nos joelhos compensam enquanto estou olhando para o céu. Porque então tenho esperança, e um pouco de fé.

Sonhar é o meu crime. Sonhar em rosa e azul. Sonhar em violeta, violenta miragem de paz dentro de mim, que eu tento alcançar, que eu tenho que alcançar para conseguir viver em paz comigo mesma. O auto-conhecimento dói tanto… Eu estou doendo tanto. Tanto. Tanto.

Tanto…

Olhar para o céu é proibido aqui. Os hematomas dos tombos que sofro quando estou olhando para o céu se transformaram em dor metafísica. Oh, meu Deus, o que farei? O que eu fiz? 

Em meio a todo esse redemoinho que me cerca eu gostaria muito de um copo de chá quente, de um abraço apertado e de um peito para recostar a cabeça. De alguém para dizer que “shhh, está tudo bem”.

Mas está escuro. E eu estou ansiosa a respeito do que o futuro reserva para mim, e contrario minhas próprias crenças. Há sempre… Bem, há sempre esse monstro. Mas eu não tenho mais medo dele. Eu só quero que ele morra. Mas tenho medo… e se isso significar que eu tenho que morrer também?

Uma festa para o céu escuro (tão escuro…)

Short Tale About Korne

Karla estava espetando o olho fechado com o bocal da caneta. O olho aberto estava pregado na mesa suja e engordurada e a mão livre brincava com um canudo. A boca aberta esboçava um ar de não sei o quê… até que bocejou. Dai parou o que estava fazendo e deixou a cabeça pender para trás, recostando-a na cadeira.

O ventilador de teto girava devagar, mas ela imaginou por um momento que ele era um redemoinho que, em toda sua voragem, tragava sua alma e moía seus orgãos, deixando apenas o esqueleto ali, prostrado diante de farelos de pão e cerveja barata.

Era uma merda incrívelmente inacreditável que ela tivesse que ir ali aos sábados para se encontrar com Lisa. Todos os sábados. Ali, naquele lugar inóspito e sem vida. Bom, isso não importava tanto, mas o lugar era realmente horrível. Não vendiam quase nada e a única opção de comida – dentre as 40 que estavam no menu – era batata frita com queijo cheddar.

“As batatas até que são boas, mas não compensa”, ela pensou. Quer dizer, a cidade era pequena e remota, mas haviam um ou dois pubs onde elas poderiam ir e beber algo em paz, sem ter a preocupação de lidarem com estranhos sorrindo de lado e mandando beijinhos. Porque ninguém frequentava aqueles locais. Só os jovens hipsters com suas almas rebuscadas e que pareciam ter sido desenhadas num caderno de desenho rasgado.

Karla sequer sabia por que aqueles velhos ainda tentavam conseguir alguma coisa com ela. Logo com ela, a menina com o delineador borrado e a cara cheia de espinhas de pré-adolescente – ela tinha 21 anos. A questão do delineador era preguiça e falta de uma boa coodernação motora; ela não se achava nem um pouco bonita, além disso, então não via por que se esforçar com maquiagens e loções, etecetera etecetera.

Era interessante como sentar-se em um lugar, tomar uma cerveja e ter velhos te encarando podiam fazer com que você se sentisse desconfortavelmente inadequada. Como se fosse sua culpa. De longe um senhor que devia ter seus 60 anos, sentado ao balcão, piscou para ela. Ela preparou-se para mostrar o dedo do meio quando, de repente, Karla sentiu duas mãos no seu rosto e tudo ficou escuro.

_O que diabos…_ela começou, mas parou quando virou-se e deu de cara com Tomi Wendells. Teve vontade de vomitar e rir ao mesmo tempo. Tomi estava ali, parado na sua frente como um boneco de bibelô, sorrindo e segurando um buquê de rosas. “Merda, Lisa, o que você armou dessa vez?”

_Oi, Korne!

Claro que ele tinha que chamá-la de Korne. Era um apelido estúpido. Seu segundo nome era Orrana e seu sobrenome Newman. As pessoas eram mesmo brilhantes. Ao menos era melhor do que seu apelido da quinta série. Konorréia. É, a vida era injusta e brutal.

Tomi usava uma blusa de mangas curtas, jeans e os mesmos sapatos que usava sempre. Ela gostava disso nele, pelo menos. Ele também não parecia se importar muito com a aparência. Plus, ele tinha aquele quê de quem está perdido no mundo mas continua sorrindo mesmo depois de ter perdido a esperança de encontrar seu lugar. Ele literalmente estava sempre sorrindo. Mas não parecia muito feliz.

_O que está fazendo aqui, Tomi?_ela perguntou, suspirando e passando as mãos pelo rosto. Odiava que a tocassem. Não por que sentia nojo ou coisa parecida, ela só sentia uma agonia imensa e tinha vontade de fazer careta. Por isso virou-se para que Tomi não visse sua carranca ao esfregar as mãos na cara.

As próximas duas horas seguiram-se arrastadas. Tomi explicou que Lisa estava doente e sem celular, então pedira encarecidamente para que ele fosse até ali e a avisasse disso. Era a pior mentira que já ouvira na vida, e o pior era que ele realmente parecia acreditar nisso piamente, e parecia esperar que ELA acreditasse também. Karla não pediu mais explicações. Simplesmente aceitou o buquê, colocou-o num canto da mesa e chamou a atendente.

_Mais duas dessas, por favor._ela pediu apontando para as três garrafas de cerveja vazias em cima da mesa. Se ela iria mesmo fazer aquilo…_Tomi. Quer alguma coisa?

_Uma água mineral, por favor._ “É, ele é esse tipo de pessoa…” pensou, e suspirou, lançando um sorriso apático para Tomi, que insistia em manter a mesma cara de contentamento e ignorância.

Era claro o que estava acontecendo. Lisa estava bancando o cupido de novo. Naquele momento, Karla arrependeu-se profundamente de ter compartilhado seus 21 anos de solidão com a amiga. Ela poderia muito bem mandar Tomi embora ou dizer que precisava ir para casa terminar o trabalho de Álgebra, ou simplesmente dizer “Tomi, cara, não vai rolar. Eu sequer gosto de flores”, mas Karla sentiu uma estranha sensação de piedade diante daquela situação, além da sua famosa dificuldade em se expressar e dizer não.

Então eles ficaram ali e fingiram não notar o desconforto que permutava-os. Karla passou a maior parte do tempo bebericando a cerveja e dando respostas monossilábicas, um esgar de tédio disfarçado de sorriso grudado nos lábios. Tomi falou sobre onde passaria as férias, sobre como estava ansioso para rever seus pais e comentou sobre como a água dali era boa. “Como uma maldita água pode ser boa ou ruim?”, ela pensou. Mas no tédio instalado e no silêncio incômodo ela deduziu que, afinal, havia como saber disso. Por exemplo…

_Bom, eu tenho que ir.

Karla sentiu-se um pouco ofendida. Não passara pela sua cabeça que Tomi poderia não estar gostando tanto do encontro, também, e de repente sentiu-se constrangida e boba. Ele despediu-se com um aperto de mão e o mesmo sorriso de sempre, tomou o último gole da água e virou-se para ir embora.

_Tomi!_A palavra saltou dos seus lábios como um sapo que pula na sua cara diretamente do nada. Ele virou-se, e sua expressão era de surpresa. Era a segunda vez que ela dizia seu nome desde que ele chegara e possivelmente ele achara isso estranho, vindo dela que pouco falara a noite inteira._Obrigada por… pelo… por passar aqui e me avisar e tal…_ela gaguejou. E encarou o chão como uma menina de 12 anos,  sentindo o sangue corar seu rosto.

_Oh! Não há de quê, Korne._ele respondeu, e sorriu. E depois foi embora.

Karla mal percebera, mas havia se levantado. Ficou um terço de minuto ali, parada, olhando para a porta, meio estupefata consigo mesma, meio distante de tudo. Olhou para o alto. O ventilador ainda girava devagar. Virou-se e o velho já havia ido embora, e então ela notou que ela era a única pessoa ali, com exceção da garçonete. E sentiu-se vazia e sozinha e estranhamente abandonada.

Sentou-se, sentindo-se desajustada e feia, encolheu-se ali e pensou sobre como queria bater em Lisa naquele momento e em como queria que todos os homens fossem extintos e em…como queria que as coisas fossem mais fáceis. Mas ela nunca fazia um esforço, sua mente disse. “Ces’t la fucking vie”, ela murmurou, terminando a última garrafa de cerveja enquanto seus olhos marejavam, e ela estupidamente começava a chorar.

_A conta, moça._A garçonete estava do seu lado, e estendia um papel, mas quando a viu chorando apenas deitou a nota na mesa e afastou-se.

_Obrigada._ ela sussurrou, limpando o nariz que escorria. E então sorriu. Um sorriso medonho, e incomum, e ignorante, e triste.

Passou meia hora ali, sorrindo e bebericando a cerveja, até que já era tarde o suficiente para ir embora, e Karla levantou-se, sorriu para a garçonete, que a observou com curiosidade, e saiu cambaleando até a porta. Então o hábito gritou outra vez e ela olhou para o céu, visível dali.

Era uma noite bonita e escura, e a lua brilhava. Ela foi embora pensando sobre os diferentes sabores de água mineral e sobre sapatos gastos.

 

Dedicado a Amanda Rocha.

Short Tale About Korne

O nascimento de uma ideia

Como nasce uma ideia? No centro da nossa vontade ou aleatoriamente, como nasce um “ai” em tempos de holocausto? A resposta para essa pergunta se faz importante, pois a partir dela, e somente dela, pode se construir a história de Luíza.

Luiza era uma menina, ou melhor dizendo, uma mulher, uma grande mulher, uma mulher e tanto! Enfim, acho que vocês captaram a ideia de que Luiza era grande e não somente intelectual e metafisicamente, mas também alta. O que fazia com que ela parecesse ainda mais imponente.

Um dia, numa tarde de domingo, Luiza decidiu que enlouqueceria.

Há a necessidade aqui de esmiuçar o significado de loucura, pois comprovadamente todos somos loucos, pelo menos em algum âmbito de nossas vidas. Mas falam da loucura com um certo preconceito, formado desde que somos crianças. A ideia geral é a de que loucura é algo ruim. Não devemos ser loucos! Ser louco é algo pejorativo, é um insulto, é inadimissível!!!

É algo construído ao longo da história e que levará todo o tempo do mundo para desconstruir… Enfim. Dito isto, voltemos a Luiza.

A primeira pergunta se faz aqui de novo precisa: Como nasce uma ideia? Por que Luiza decidira tal coisa? Ela realmente decidira? Havia realmente dentro dela um mecanismo capaz de decidir tal coisa? E se sim, há lá esse mecanismo dentro de todos os outros, certo? Então, podemos inferir que Luiza estava farta, cansada, quem sabe até num delírio. Ou podemos dizer que foi apenas uma decisão. Afinal, a vida é feita de escolhas. Ou não?

Ao menos é o que todos dizem. E o que todos dizem acaba por transformar-se em verdade.

Luiza rasgou todos os seus vestidos, e queimou todos os jeans e jogou no lixo todos os sapatos. Vestiu-se, então, com uma blusa larga e rôta, bebeu um copo d’água, e saiu pela casa a quebrar tudo. Quadros foram dependurados das paredes, vasos foram quebrados e as flores neles contidas espalhadas e pisadas casa afora. Enquanto pisava nas flores, Luiza pisava também nos estilhaços de vidro, fazendo com que o chão ficasse sarapintado de cores.

Então subiu as escadas até o primeiro andar, e no pequeno jardim que mantinha ali, jogou-se. Cactus arranharam sua pele e frágeis plantas foram esmagadas e torcidas. Mas Luiza nada disso parecia perceber, ou nada disso parecia importar para ela. Rolou dentre as plantas e quando já exausta, suando e suja, levantou-se e pôs-se a respirar ofegante, com o coração batendo acelerado no peito, e uma leve vertigem.

Aproximou-se da beira da laje, observando minunciosamente por uns bons 5 minutos os carros e motos passando para lá e para cá, escutando os murmúrios das pessoas, agitadas, vivendo suas vidas aflitas, e sedentas de algo. Algo que não sabiam como encontrar.

Observou. Avaliou. Respirou profundamente. Seu coração não batia mais tão rápido. Ergueu o queixo e contemplou o céu. Sentia-se plena. Vazia. Sentia sua mente circundar um horizonte suave e distante, que ia se aproximando, e se aproximando…

Baixou os olhos e sorriu. Depois os fechou, como quem os fecha para dormir.

E então pulou.

***

O nascimento de uma ideia