Sobre você e a dor insistente.

Eu poderia estar cercada por monstros. Mas lá estava você transgredindo a regra e fazendo valer a exceção. Com seus olhos grandes e lábios que poderiam me fazer sentir como se eu estivesse flutuando entre nuvens carregadas de chuva. Lá estava você, com seus tênis surrados e pernas bambas, e sorrisos, que eu sabia, não eram sinceros; cambaleando pela vida com os olhos cansados e a mente distante, em outra atmosfera ou planeta, alguma pequena casa que você mesma criou. E isso te mantinha sã.

Eu ofereci um cigarro, mas você disse que odiava drogas. Ainda assim bebia a goles fartos um copo cheio de conhaque, e ria quando alguém contava uma piada ou algo que sugerisse que deveríamos rir. Você seguia todas as regras, todos os protocolos de normatividade, mas isso, pelo que eu percebia, te deixava com os olhos vermelhos e inchados pela manhã e com dores estomacais horríveis.

Seu corpo esguio ia perdendo medidas até ser apenas um reflexo do que você fora um dia. Você parecia doente, triste e desnorteada. Mas isso não a impedia de correr para a auto-destruição. Porque você queria ser perfeita, mas perfeição não existe neste mundo, é apenas algo inventado, uma forma de fugirmos de nós mesmos. E você caminhava nesse trilho, e lá longe vinha um trem, mas você não corria ou se sobressaltava. Apenas andava em direção ao seu próprio fim.

Eu disse: você precisa de ajuda. Você disse: vai se foder! Seu pescoço estralava quando você o alongava, como ossos velhos e enferrujados e nervos doloridos. Você doía, mas se recusava a acreditar nisso. Continuava seu caminho, lendo quando não estava bêbada demais e escrevendo nas noites em claro.

Eu poderia estar cercada por monstros… levando em conta o quanto meu coração doía quando eu te olhava, eu deveria estar cercada por monstros. “Você leva tudo muito a sério”, você dizia. “Nunca fomos para sempre.” Não, nunca fomos. A reciprocidade nunca existiu, certo? E eu cansei de escrever sobre você porque minha cabeça dói e eu fico cada vez mais triste, existe esse furacão dentro de mim e você rodopia dentro dele enquanto eu tento te salvar, e não consigo, porque não posso. Eu cansei de escrever sobre você. Mas continuo te querendo.

Sobre você e a dor insistente.

Ela estava sentada ao Sol tentando perguntar a ele se ela era digna de pena por amá-lo e ser platônico. Mas no fundo ela sabia que amor não é motivo para ter pena. É algo mágico. Como olhar as estrelas no céu e imaginar que são confetes numa festa de aniversário. Ou vice-vice-versa. 

_E então?

_Bom, para ser sincero um pouco patético.

_E se nós beijássemos?

_Não podemos nos beijar.

_Por que?

_Por que? Eu tenho namorada, lembra?

Os olhos dela marejaram. Ela levantou-se, respirou fundo e disse: “Preciso ir.” E foi. Ao longo do caminho chorava. E chorava porque amava e amava tanto que doía, e não havia nenhuma recíproca. Era muito doloroso. Mas ela se contia.

Até que ela, cegada pelas lágrimas, tropeçou e caiu. E então aproveitou o ensejo e ao levantar-se descambou num choro forte e triste, com soluços e mais tremendo. E assim ficou por longos minutos. Era fim de tarde e a praça estava cheia. Mas não haviam olhares que

As flores mortas na piscina

Luiza ajoelhou-se. No tapete do quarto. Mas antes de dar início a sua pequena oração, ela plugou o carregador do celular na tomada. Então, ali, nua de corpo e alma, fechou os olhos e pediu. 

“Deus, me ajude a entender o que está acontecendo.” E levantou-se. Parecia que tudo estava perdido e nunca seria encontrado novamente. Parecia que o medo e a saudade eram mais fortes do que sua sensatez e razão. Mas ela engoliu o choro, que já derramara deitada nua no tapete. E seguiu para o banheiro.

Erik Satie tocava no seu computador. Sinfonias melancólicas e que faziam com que desejasse uma garrafa de vinho e companhia. Quem no mundo escuta Erik Satie enquanto conversa sobre… sobre qualquer coisa? Ela queria alguém para conversar sobre como os gatos dormem engraçado e como parece mágico à noite…todas as estrelas no céu. E todos os desejos na ponta da língua. 

Luiza deixou que a água gelada escorresse pelo seu corpo, e de olhos fechadoa fingiu que se afogava em um imenso oceano, e isso lhe trouxe paz de espírito. 

Depois, mirando os próprios olhos no espelho percebeu uma faísca de coragem. Mas que ainda precisava a ser atiçada. E viu também dor, e medo, e perplexidade. Mas não pensou sobre isso. Não queria. Não podia ou choraria e não pararia mais. Então ela apenas respirou fundo, e cambaleou até o quarto. 

Hidratou o rosto com uma máscara facial, massacrou os pés cansados,  contentou-se com a solidão e sorriu em eio ao silêncio apenas rompido delicadamente pela música suave que vinha da sala. 

E então deitou-se. Mas manteve os olhos abertos. Até que o sono a acolheu e ela sonhou. Um sonho tão íntimo e bonito que não se pode descrever.  Efeito da música ou do banho, não se sabe. Mas Luiza dormiu, em paz.

As flores mortas na piscina