Sinto saudade do tempo em que eu costumava correr pela casa e rir por tudo. Minha essência… será que a perdi? Eu costumava ser tão feliz… Oh, eu era feliz e não sabia. Eu sinto falta dessa ignorância também. Agora quero saber ser feliz e não o sou.

circulando a dor

Ela estava estacionada nos anos 90 escutando alguma banda ruim com uma batida contagiante o suficiente para fazer seus pés dançarem. Esperava. Como quem espera que a espiral vermelha dentro dos olhos pare de girar e desça do teto como alguma sorte de revelação. Doía. Porque tomava muitos remédios e era a única forma de não estar sempre a chorar, e embora não chorasse, ainda doía. Mas só assim conseguia escrever e ler e assistir os filmes que alugava.

As vezes você precisa chorar. É o que resta. O que resta do resto. Do resto das flores murchando; da novela na tv, desligada antes que chegasse ao fim; do amor que se transformou em ódio ou indiferença. As vezes você só precisa chorar. Ela estava trêmula, mesmo coberta dos pés a cabeça com uma manta grossa de lã. Um fio solto era a sua diversão. Puxava-o, mas não o bastante para que o fio crescesse e se desemaranhasse do entrelaçado onde estava.

A vida é esse peso as vezes, esse fardo que temos que desemaranhar fio a fio. Mas sua vida ultimamente parecia um monte de fios desencapados, e a cada tentativa, a cada vez em que ela teimava em colocar a sua mão ali, ela se machucava. Todos têm sua cota de tristeza, e ninguém tem a vida perfeita. Ainda assim, ela almejava por isso. Pelo sonho que criara na sua mente de 13 anos, quando ela ainda tinha treze anos.

Agora tinha 21 e estava tão perdida… Derramada aos pés da cruz no quarto chorava por misericórdia todas as noites. E é isso gradual? Digo, a felicidade. Ela chega aos poucos e não percebemos? Ela se faz de estranha? E depois morre? Para que tenhamos que procurar de novo, e de novo, e de novo? Ela esperava que não. Estava bem cansada. E só tinha 21 anos. Mas sentia como se a vida fosse se esvaindo a cada hora.

Ela não gostava de falar sobre coisas tristes o tempo inteiro, como as pessoas deduziam. Mas ela achava necessário falar sobre a tristeza e sobre as coisas que nos corroem por dentro, sobre o que dói, sobre a dor que não conseguimos apalpar e acariciar e curar com as nossas mãos. Que está longe, e ao mesmo tempo perto demais; que não vai embora no fim do dia. Ela achava importante falar sobre isso, e por isso estava sempre quieta, porque as pessoas estavam sempre falando sobre esperança e amor, e sobre… e rindo. E ela estava tão triste, que parecia que o seu coração iria se desmanchar.

E é isso. Era tudo. O que ela escrevera nas paredes da memória já não fazia mais sentido. Ela doía. E agonizava. Era só.

 

circulando a dor

Little Kid

Faziam quatro anos desde que eu desistira de um curso que eu pensava ser o que eu queria para mim. Eu mudara de cidade esperando uma reviravolta, algo bom, mas o que sobreveio foi a Depressão e a recorrente ansiedade. O medo de não conseguir ser boa o suficiente, o medo de perder… não gosto de perder. Achava estranho, porque não era acostumada a ganhar.

Agora eu deveria escolher outro curso, e estava entre a cruz e a espada. De um lado, Cinema, algo que tinha tudo a ver comigo. Do outro, qualquer outro curso que rendesse dinheiro. Eu não queria ser rica. Mas eu queria ajudar os meus pais. Nunca sentira essa sobrecarga antes. Talvez há quatro anos quando escolhi Psicologia… não me recordo. Mas agora era real. Eu não tinha mais 18 anos. Embora parecesse estagnada nos 16.

Prendi meu exuberante cabelo azul num coque malfeito e ajeitei os óculos. Mas não conseguia me concentrar na leitura. Estava tudo errado. Tudo. Eu não deveria estar nesse mesmo quarto… Esse mesmo quarto. Há 21 anos vivo aqui. Isso me faz querer chorar e as pessoas pensam que quem chora não está bem e se você não está bem, está incapacitado, então não pode fazer nada. Eu estava tão, mas tão cansada de pessoas regindo a minha vida. Mas não sabia como agir. Não sabia como agir sozinha.

Eu era como uma criança sozinha e triste por minha conta, fora mimada demais pela minha mãe, e agora não sabia como viver. Se é que há um significado universal para “vida”. Se existia, eu estava fazendo tudo errado de qualquer forma. Minha mente rodava e rodava e eu só conseguia pensar em uma saída. Mas não pensava mais nisso com tristeza, nem com medo, nem remorso. Era literalmente minha única saída porque tudo na minha vida parecia dar errado.

Agora meus olhos estavam marejados e eu não conseguia enxergar direito. As lágrimas caiam no meu colo e molhavam tudo. De repente me recordei dos primeiros meses com a medicação nova há quatro anos, quando tudo que eu queria e conseguia fazer era assistir a filmes e seriados.

Eu era como um bebê. Tão frágil, tão alheia ao mundo lá fora. Então, eu sofria com uma terrível dualidade dentro de mim. Eu não sabia como agir lá fora, e não sabia como agir aqui dentro, tampouco. Hoje eu não sabia identificar se ainda sentia isso. Se sim, não importava mais. Não tanto. É engraçado como as coisas se deslocam com o passar do tempo.

Eu, porém, parecia continuar lutando contra os mesmos monstros. Claro, houvera progresso. Eu não me mutilava mais, e fazia já algum tempo desde que eu tentara me matar. Mas eu continuava com medo. Pior. Eu estava pior. Com mais medo, com uma certa fobia de sair sozinha. De conversar e me aproximar de pessoas. Eu precisava começar a fazer as coisas, a ser quem eu era. Mas tudo pesava tanto. Era como se meus ombros nunca ficassem relaxados por causa do peso, e minha coluna sempre torta e meu pescoço estalava. Eu estava ficando velha, e meu maior medo era acabar como meus pais, cheia de sonhos e arrependimentos.

Eu ainda era a mesma menina olhando pela janela para as montanhas ao longe. Mas agora a janela estava fechada, e eu não conseguia mais imaginar algo bonito depois do horizonte.

Little Kid

Sobre não ser interessante para o mundo


TALVEZ EU NÃO FOSSE INTERESSANTE. Talvez eu fosse terrivelmente chata, inconveniente, repetitiva e deslocada demais para encarar a vida sóbria. Talvez eu nunca fosse melhorar ou conseguir chegar “lá”. “Lá” seria o meu ponto de encontro comigo mesma. A minha catarse perfeita sem precisar de crises de choro ou remédios. Seria o meu lugar feliz. 

Eu estava cansada de esperar por esse lugar feliz. Eu passava os dias no Facebook observando as pessoas postarem fotos das suas vidas que pareciam tão melhores que a minha. E vez ou outra alguém tão triste como eu, mas popular. Então eu e minhas postagens depressivas passavam batido, eu passava ilesa. Ao menos metaforicamente. Porque, a realidade era que eu estava cheia de machucados e marcas de empurrões. 

As pessoas me empurravam quando queriam chegar no ponto de ônibus, me empurravam porque eu estava no caminho delas e elas estavam a caminho da faculdade, ou da escola, ou do cinema. E eu estava estagnada com uma corrente de 100 toneladas me prendendo a uma âncora que a cada milésimo de segundo se aproximava mais do despinhadeiro do qual eu estava fugindo. Elas me ameaçavam com pontapés e chutes se eu ameaçasse chorar. E nada disso precisava de esforço físico. Não! Bastavam algumas palavras.

Eu era frágil demais para esse mundo. Pateticamente frágil. Pateticamente muda. Estagnada, presa, literalmente uma presa da vida. Então, talvez eu não fosse interessante. Eu era só uma otária cheia de livros e referências e completamente fora do padrão para ser no mínimo cogitada como alguém legal. Essa era eu. Ou ao menos era como eu me via.

E agora eu estava ali, pensando em como eu deveria dar um jeito na minha vida. Virá-la do avesso ou tentar algo novo, fazer alguma coisa e sair daquele estágio de letargia onde eu estava! Eu não aguentava mais. Eu estava batendo a minha cabeça na parede repetitivamente como alguém que precisava ser exorcizada dos seus demônios. Os meus estavam tentando me comer viva. 

Eu estava tentada a deixar. Afinal de contas eu não era nada de bom para o mundo. Eu era como una concha repleta de merda. E minha cabeça estava começando a doer. 

Sobre não ser interessante para o mundo