Little Kid

Faziam quatro anos desde que eu desistira de um curso que eu pensava ser o que eu queria para mim. Eu mudara de cidade esperando uma reviravolta, algo bom, mas o que sobreveio foi a Depressão e a recorrente ansiedade. O medo de não conseguir ser boa o suficiente, o medo de perder… não gosto de perder. Achava estranho, porque não era acostumada a ganhar.

Agora eu deveria escolher outro curso, e estava entre a cruz e a espada. De um lado, Cinema, algo que tinha tudo a ver comigo. Do outro, qualquer outro curso que rendesse dinheiro. Eu não queria ser rica. Mas eu queria ajudar os meus pais. Nunca sentira essa sobrecarga antes. Talvez há quatro anos quando escolhi Psicologia… não me recordo. Mas agora era real. Eu não tinha mais 18 anos. Embora parecesse estagnada nos 16.

Prendi meu exuberante cabelo azul num coque malfeito e ajeitei os óculos. Mas não conseguia me concentrar na leitura. Estava tudo errado. Tudo. Eu não deveria estar nesse mesmo quarto… Esse mesmo quarto. Há 21 anos vivo aqui. Isso me faz querer chorar e as pessoas pensam que quem chora não está bem e se você não está bem, está incapacitado, então não pode fazer nada. Eu estava tão, mas tão cansada de pessoas regindo a minha vida. Mas não sabia como agir. Não sabia como agir sozinha.

Eu era como uma criança sozinha e triste por minha conta, fora mimada demais pela minha mãe, e agora não sabia como viver. Se é que há um significado universal para “vida”. Se existia, eu estava fazendo tudo errado de qualquer forma. Minha mente rodava e rodava e eu só conseguia pensar em uma saída. Mas não pensava mais nisso com tristeza, nem com medo, nem remorso. Era literalmente minha única saída porque tudo na minha vida parecia dar errado.

Agora meus olhos estavam marejados e eu não conseguia enxergar direito. As lágrimas caiam no meu colo e molhavam tudo. De repente me recordei dos primeiros meses com a medicação nova há quatro anos, quando tudo que eu queria e conseguia fazer era assistir a filmes e seriados.

Eu era como um bebê. Tão frágil, tão alheia ao mundo lá fora. Então, eu sofria com uma terrível dualidade dentro de mim. Eu não sabia como agir lá fora, e não sabia como agir aqui dentro, tampouco. Hoje eu não sabia identificar se ainda sentia isso. Se sim, não importava mais. Não tanto. É engraçado como as coisas se deslocam com o passar do tempo.

Eu, porém, parecia continuar lutando contra os mesmos monstros. Claro, houvera progresso. Eu não me mutilava mais, e fazia já algum tempo desde que eu tentara me matar. Mas eu continuava com medo. Pior. Eu estava pior. Com mais medo, com uma certa fobia de sair sozinha. De conversar e me aproximar de pessoas. Eu precisava começar a fazer as coisas, a ser quem eu era. Mas tudo pesava tanto. Era como se meus ombros nunca ficassem relaxados por causa do peso, e minha coluna sempre torta e meu pescoço estalava. Eu estava ficando velha, e meu maior medo era acabar como meus pais, cheia de sonhos e arrependimentos.

Eu ainda era a mesma menina olhando pela janela para as montanhas ao longe. Mas agora a janela estava fechada, e eu não conseguia mais imaginar algo bonito depois do horizonte.

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