Esta é uma história infeliz e falsa

Eu estava tão feliz em minhas novas botas. Eu estava tão distante de casa para sentir o aroma do jardim da minha mãe. Flores apodrecendo e crescendo. Eu havia digitado “apodrescendo” mas apaguei porque erros de gramática não são admissíveis. Eu estava tentando me reinventar. Arrancar as peles mortas que cobriam as minhas espinhas e extrair os dentes podres da minha essência. Eles doíam e fediam. Eu tivera um sonho, um sonho estranho demais. Eu estava correndo numa floresta, e haviam pandas por todo o lado. E a floresta era na fazenda da minha avó. Por que eu digo avó, e não avô? Afinal pertencia aos dois. Talvez porque, eu não sei, fosse meu chamado feminino. Ou talvez fosse porque eu escutara histórias demais sobre como ela tratava a minha mãe de forma diferente. Ela sequer visitara minha velha mãe em seu leito de morte. Haviam flores mortas no jardim da minha mãe. Apesar da distância, eu podia sentir. Eu odiava quando eu errava uma palavra. E as flores, bom, elas fediam, como se fossem pessoas em pétalas e talos, e estivessem mortas. Por dentro, carne, sangue e tendões. Eu pisquei e então eu estava desmaiada em minha cama, uma garrafa de vinho ao meu lado, me fazendo a companhia que todos me negavam. O-BS-TÁ-CU-LO. Eu sorri para o teto ao sentir meus pés.

Ainda estava com as minhas botas novas.

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