sobre o cansaço rotineiro

cansei de escrever sobre dores, falsos amores, fantasmas perturbadores. gostaria de um dia, por algumas horas, sentir o êxtase que a abelha sente ao colher o pólen, que a mulher apaixonada sente ao saber que é correspondida, queria ser a lua olhando dentro do sol sem derreter como nos eclipses. e não mais tristeza. não mais lamentos nem murmúrios. eu canso e penso tais coisas, quero isso. e sei que a vida sem tristeza é insossa, porque precisamos das trevas e das luzes, e do doce, e do amargo, caso contrário vira tudo sem graça, vira tudo um grande nada, um poço fundo e sem água no fundo, seco e abandonado. mas, registrado está que, se insisto em escrever sobre a dor, é porque a sinto, e se escrevo sobre o não correspondido, é porque sei. e a gente só escreve sobre o que sente e sabe. e, claro, sobre o que lembra.
 
ps.:que fique claro que eu tenho um grave problema em guardar as boas memórias.
Anúncios
sobre o cansaço rotineiro

C’est la vie, c’est vrai, c’est beau

Lara estava embebecida pela beleza do pôr-do-sol . Era a primeira vez que subia tão alto no morro, pois tinha medo de se aventurar por lá sozinha. Mas daquela vez estava acompanhada, por João, amigo e amante.

_Acho tudo isso lindo… e muito cheio de significados…_ falou, absorta e meio sonhadora.

João riu.

_Significados como?

_Não sei, mano… você olha pra tudo isso e então percebe, sabe? As coisas… Como a gente perde tempo com as coisas mais idiotas.

Ela olhou para ele e fitou-o longamente à espera de um sinal de que João havia entendido. Mas ele apenas acenou, e então rebentou em uma gargalhada, um pouco espalhafatosa demais, o que deixou Lara sem graça e a fez virar o rosto.

_Você acha graça… Não entende. _disse. E com um suspiro, acrescentou:_ A gente perde muito tempo…

E voltou a suspirar, entretida em seus próprios pensamentos, e um pouco magoada por João ter rido. Mas dai pensou consigo mesma, na cisma em que entrara naquele momento e sentindo-se muito transcendente, que tudo aquilo era bobagem. Era estúpido. Não valia a pena. E que a gente só perde tempo com esse tipo de coisa porque guarda sentimentos ruins dentro do peito, pensamentos nocivos.

Lara respirou bem fundo e achegou-se ao namorado.

_Mas sabe?_ela disse, tascando um beijo no rosto de João._ Nem liga! Ninguém entende.

Ele abraçou-a. Era um daqueles momentos que, se vistos de longe, dariam uma cena de filme. Não um filme romântico, mas um daqueles filmes experimentais e cheios de filosofia.

_C’est la vie, c’est vrai, c’est beau?_ele sussurrou. Ela só sorriu junto com o sorris dele, e virou-se de novo para o sol se pondo no horizonte. Coisas bobas… coisas belas.

 

C’est la vie, c’est vrai, c’est beau

amor inventado

O céu estava cintilando com estrelas, e era lua nova. Clara caminhava apressada pela calçada, arriscando correr em alguns momentos. Olhava para o céu, sorria, e continuava a caminhada, ignorando que poderia cair ou tropeçar. Fora até o mercado próximo dali comprar qualquer coisa doce com o pouco dinheiro que sobrara do final do mês. Comprara uma barra de chocolate. Não era lá muito fã de chocolate ao leite, mas naquela noite precisava de algo doce e agradável.

Desde o final da tarde sentia uma forte nostalgia e um terrível sentimento de melancolia; chegara a sentar-se na varanda a ouvir músicas que outrora escutara, em outras circunstâncias, em outra era. O vento frio balançava seus cabelos e lambia seu rosto pálido. E com o vento vinham memórias e sentimentos.

Ela sentia falta de vários momentos de sua vida. Pensava que, se pudesse voltar a ser uma menina de 16 anos, virgem, confusa e tímida, e pudesse então mudar seu destino, o faria. Mas ao mesmo tempo ficava a refletir consigo mesma. Será que mudaria de fato alguma coisa? Será que não estava fadada a ser assim? A ser só? Será que, se retornasse dez vezes, todas as dez vezes ela não aceitaria de novo o rapaz naquela rede social estúpida? Era o que ficava a pensar.

E como ela sentia a sua falta. Como gostaria de poder abraçá-lo, tocá-lo, respirar o mesmo ar que ele. Senti-lo dentro dela. Como ela o amava… Ou era obcecada por ele. Só sabia que não conseguia esquecer a ideia de um “nós”, quando só havia ela. E sabia que perdera todas as oportunidades que tivera por puro medo e recato. Arrependia-se grandemente e vertia lágrimas ao menos uma vez no mês por isso. Clara pedia aos céus quase todos os dias para que ele a escutasse.

Pedia aos astros que escutasse quando sussurrava seu nome. E tinha vontade de derramar-se em desespero por não tê-lo.

A dor causada pelo amor é uma das dores mais cruéis que existe. Não somente o amor romântico, mas o fraternal, e todos os outros. Perder alguém dói.  E embora esse amor fosse desequilibrado, embora pendesse mais para uma ponta do que para a outra, embora ela sentisse que estava a morrer a cada dia que passava… era o que era.

Clara apressou-se e por um triz não caiu de cara no asfalto. Era culpa da noite que pairava sobre ela. Naquele momento era real, era quase palpável. As estrelas mortas há séculos iluminavam sua mente e à luz da memória ela olhava para si mesma, e pensava consigo: “quando me tornei tão entediante? ou sempre fui assim?” Chutou uma pedrinha na estrada, e ficou a questionar-se outras tantas coisas que não entendia… Não fosse o chocolate, e o vinho que a esperava em casa, já teria pulado para a frente de um carro, tamanho o caos que a engolia no momento.

Mas havia sempre ao que voltar-se. As vezes voltava-se para Deus, na natureza, nas estrelas, nos astros que iluminavam a terra. Outras vezes voltava-se para o narcisismo ou para o medo de si mesma. Outras para os livros, para a filosofia e para os seus dogmas… Bebia café e baforava cigarros na cara do seu velho gato empalhado, que ficava em cima de uma estante na sala, a assustar as moscas. Escutava Exagerado e dançava na frente do espelho quando a tristeza a corroía e tentava enlouquecê-la. Cantarolava “pra mim é tudo ou nunca mais” e sentia-se por dentro contemplada pelas palavras de Cazuza.

Talvez fosse a sua mente, de fato. Clara deitou-se no chão da sala assim que chegou em casa. Ou melhor, jogou-se. O tapete macio amorteceu a queda, mas ainda assim seus joelhos e mãos doeram. Queria criar ali suas raízes doentes e mirradas e crescer o suficiente para contemplar a beleza que estava escondida em algum lugar na vida, no universo. Quem sabe suas lágrimas ajudassem. E assim chorou. Esperando que, de fato, crescesse, ao menos metaforicamente; esperando que ao menos tivesse um insight e tudo mudasse. Quando viu que nada ocorria, a não ser a dor, ergueu-se e foi em direção a cozinha. Apanhou o vinho e bebeu um longo gole, ficando um pouco tonta, pois comera já há algum tempo.

E assim passou aquelas horas turbulentas. A se entupir de vinho e chocolate, deitada no chão da sala, prestes a vomitar borboletas putrefatas e errôneas. Era sua ideia de felicidade. E, ao menos por algumas horas, deixava-a mais feliz do que sua idealização do amor.

amor inventado

em Marte

Você colocou suas roupas mais bonitas e pendurou um colar caro de brilhantes ao redor do pescoço longo. Suas bochechas estavam vermelhas quando você me deu um beijo de despedida. “Estou indo, meu bem” você disse, simplista.

Mas para onde? Estará mesmo indo às compras? Pensamentos obsessivos tomavam minha mente e eu não conseguia pensar direito quando você abriu a porta e andou direto para seu mustang vermelho.

Eu não queria admitir, não queria dizer, não queria que você pensasse que eu era fraco, mas eu tinha medo de você. Dos seus olhos vermelhos e de como você sangrava todos os meses e não morria. Você era como uma feiticeira. E seu poder era deixar-me inerte e em estado catatônico a cada vez que retirava o batom vermelho com as costas da mão, deixando os lábios como que sangrentos, corados na face pálida e sombria.

Estávamos há duas semamas em Marte e não havíamos feito progresso algum, ao menos não considerável o suficiente. A terapeuta dissera que isso podia levar tempo, mas eu não sabia então como me sentiria sozinho e desolado a cada vez que você saia para fazer compras. Caso contrário nunca teria aceitado a proposta.

Eu te culpava. Culpava-a por ser quem era. Por admitir que nossa relação estava acabada e parecer seguir em frente. Quando você saia para suas comprinhas e divertimentos eu me perguntava interiormente até que ponto você iria. E se havia mais alguém em sua vida. Alguém melhor do que eu, talvez. Mais divertido, menos neurótico.

Estávamos casados há 7 anos e eu me recordava muito bem da nossa primeira briga. O motivo havia sido supérfluo o suficiente para me deixar perplexo e nervoso. Você entrara em estado de fúria e quebrara copos e pratos. Alguns meses depois isso seria motivo de riso. “Uma mulher neurótica sempre é motivo para piadas” você repetia, porém.

E eu concordava. Eu não sabia quando, nem por que, mas eu passara a te odiar. Talvez fosse o vinho aflorando meus sentimentos agora, talvez fosse só meu instinto animal. Fosse o que fosse, estava me corroendo por dentro. E eu sentia… o ódio crescendo. A vontade animalesca de cravar meus dedos em seu pescoço e só largar quando você estivesse gélida e bem morta.

“Olá, meu bem.” Me sobressaltei e o vinho respingou em meu terno bege. “Puta”, pensei. Mas sorri enquanto você fechava as portas, chacoalhando as sacolas e andando em minha direção. Beijou-me. E ali toda loucura dissipou-se. E embora eu quisesse chorar, e implorar por explicações… Eu apenas retribui o beijo e sorri.

“Divertiu-se?”

E enquanto você discorria sobre como encontrara uma velha conhecida numa loja, me deixei entorpecer. E naquele momento eu soube: seja lá o que fosse que sentissemos ou pensássmos, ou fizéssemos ou deixássemos de fazer…estávamos acorrentados um ao outro.

E eu não fazia a mínima ideia do que isso significava.

em Marte

time after time

Não espere muito pelo retorno dos frutos da velha árvore. Corra atrás do que parece impossível porque no mundo somos apenas pó, pessoas são apenas poeira de estrelas prestes a eclodir. Não vivem para sempre, não fincam raízes eternas, mas são feitas de um brilho eterno que, se ofuscado, deixa a vida sem graça. Mas essa não é a questão. Estamos a falar da árvore. Que não dá frutos nem flores há mais de dois anos. Escreve nela tua dor, em forma de rosto choroso ou em letras tortas. Morre para o mundo porque ele já morreu para você, e essa luminosidade que aparece brilhando no fim do túnel são apenas fantasmas. Não espere muito pelo retorno… Não espere muito. Não espere. Não! Vai, só vai. A árvore secará, as estrelas continuaram a explodir, você ficará mais velho e mais velho a cada dia. Não há tempo. Não há tempo. E ainda assim, é tudo que persiste. O tempo.

time after time

Y, X, B, F

As vezes não queremos que x ou y ocupe certo espaço na nossa vida. Queremos porque queremos B. Não b, mas B. E então nunca saberemos de x ou y, seus sonhos, seus mundos, seus delírios, seus defeitos.

As vezes y sai para dar uma volta e se distrai no caminho. Não volta. O espaço ocupado por y continua lá; não queremos admitir, mas isso é certa devoção. Poderíamos simplesmente tapar o buraco com uma imitação e passar batido, só nós saberíamos. Mas preferimos que o buraco permaneça lá. Então podemos sentir a dor, e saber que um dia fomos abandonados.

E as vezes somos B. Mas um dia fomos x. Ou y. E então, não fazem mais diferença os outros da vida. Somos B. Temos o que sempre quisemos – com exceção de F -, estamos melhores do que nunca…

…e quem precisa de nós… quem precisa de nós não importa mais. Já esteve lá e foi embora. Ou esteve em silêncio por tempo demais. De qualquer forma, não importa mais. Porque não esteve conosco naquela festa, ou comemorando aquela vitória. Não importa mais.

E assim segue o baile.

Y, X, B, F

Limítrofe

Odeio como o tempo prega essas peças ridículas. Se o tempo fosse uma pessoa, com certeza seria aquele senhor beirando os 70, de óculos escuros e redondos com um sorriso arrogante na cara. Mas, na verdade, o problema não é exatamente o tempo. É o que ele leva e traz…

São as pessoas, que vêm, vão, vêm. No espaço-tempo. Porque de dentro da gente elas nunca se vão, nunca deixam. Só são camufladas as vezes. Por nós mesmos, correntemente. Mas então, bum! Reaparecem, e isso causa dor, desconforto, porque ela está tentando caber no espaço que deixou há já algum tempo. Mas você mudou, e ela também.

As vezes elas encontram outras pessoas e vão prestar o serviço da vida naquele outro coração. E depois, quando acabam, lembram que um dia houve alguém que também esteve lá, sôfrego, precisando de atenção ou apenas querendo conversar. E isso gerou algo, um vínculo, uma conexão. Que em certo momento foi deixada de lado.

Dai elas voltam… e o nosso emocional vira o quê? Vira goma de mascar, vira mola; ficamos a mercê do cuidado alheio o tempo inteiro puramente porque nos importamos demais. Ou simplesmente porque nos escondemos dentro de nós mesmos, com medo, inseguros, e deixamos que os outros estejam no controle, sem nem perceber. É cansativa a jornada aqui.

Limítrofe