Violeta

 

“Nossa vivência é como um bordado, vai sendo tecida. Este bordado é a nossa história, mas não bordamos sozinhos.”

Era outra aula às três da tarde. As palavras de Flávio deslizavam pela mente dela. Escorregando, perdendo-se em uma cena opaca. A sala de aula era fria, branca, quieta. A caneta na mão da menina balançava entre o dedo indicador e o polegar, pra cima e pra baixo pra cima e pra baixo.  Um comichão na orelha esquerda e o ato irresistível de levar a mão ao local e coçar.

Quanto descompromisso, quanta chatice. Sua cabeça baixou-se. O braço tocou o rosto. Sua blusa de mangas compridas, essa sim era tecida, pensou avulsa. De lã lilás e viva, aconchegante e quente.

Aqui ela ergue-se em si mesma. O que chamam distração.  Agora espojava-se em algodão. O que sentia sempre contrapunha-se pungentemente ao que sabia. A realidade palpável e visível escapava para um canto de sua mente, em segundo plano, e o que ficava era o sentimento. As cores. O abstrato. Tudo o que doía e queimava, e fazia com que ela baixasse os olhos e chorasse.  E por isso julgava-se estúpida e egocêntrica.

Violeta agora estava perdida em algum local de sua mente. Alisava o braço envolto em lã no rosto afim de sentir a textura. Fechou os olhos e permaneceu assim. Ninguém notou, ou ninguém chamou-a de volta.

Aqui, nesse pequeno instante, os olhos fechados, sentia as linhas tecidas na blusa, imaginando plantações altas de algodão, e o Sol. Todas as cores pululantes e agressivas desapareciam, todos os ruídos se distanciavam. A quietude da sala e suas paredes brancas sumiam. Ela caminhou a esmo em um campo enevoado. Tudo o que sentia era a maciez do tecido, acariciando-a. Tudo o que escutava era o atrito inofensivo entre lã e pele.

Àquilo, ela chamava paz.

 

Violeta