Eu sou a criança desesperançosa que você um dia convidou para dançar. Eu era tímida demais para dançar na frente dos outros. E você foi meu primeiro amor. Eu amava seu casaco de couro e cabelos claros, era um amor inocente de menina de 7 anos. Mas me caça. O que terá acontecido com você? Conseguiu melhorar dos problemas no esôfago? Está namorando? Essas coisas… Não importa, realmente. Só para mim, suponho. Eu sou aquela criança desesperançosa agora. Confusa e fazendo perguntas a mim mesma, ansiosa demais para aproveitar o presente, triste demais para pensar no futuro.

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Outros 

Há um vão enorme entre nós. Onde eu temo perder meus pés revelados para o próximo trem. Há pequenas tristezas enterradas no chão de cascalho do quintal, onde eu também enterrei meu amor por você, que era algo tão bonito. Mas que nunca florecia na primavera. Estranho, não é? Flores deveriam obedecer à lei do universo. Mas talvez seja meu carma.

Nunca fui uma boa garota. “Boa garota”. Como dizem por aí, sou torta. Por dentro e por fora. Tenho pernas cambotas e um rosto nada simétrico. E uma alma mazelada por anos a fio a tentar ajustar-me a este mundo. Gosto do incomum, e gosto do que é diferente, do que é estranho. O normal me pareceu sempre confortável e chato demais, o oposto da minha essência. E eu sempre tive esse medo de… terminar como os meus pais. E quando falo isso eu fico triste por eles. Por terem feito tantos sacrifícios para terem uma família normal e perfeita, por terem deixado de lado sonhos e anseios para que eu conseguisse seguir com os meus.

Respiro fundo. Há algo em minha garganta também. Rasgando-a. Se reforçando para subir pela minha traquéia e desmaiar junto a todos os outros dejetos desagradáveis no solo. Eu respiro fundo novamente. 

“Eu grito comigo mesma quando não há ninguém mais para brigar. Eu não perco, não ganho. Se estou errado, eu estou meio certa.”
Estou bem. De repente estou chorando velhas mágoas e rindo do passado, mas bem. Como se eu tivesse certeza de que se eu morresse agora mesmo, iria para um plano melhor. E é em tudo o que acredito. Que existe algo além disso tudo. De todo sofrimento e de todos os gritos cortando o silêncio como uma faca amolada a cortar a carne. Porque, se eu não acreditar nisso, como conseguir seguir?

O vão ainda está lá. Mas eu mantenho meus pés afastados. Ainda tenho medo. Ainda dói da última vez que tive que costurá-los. Agora mal posso andar. Então eu só respiro fundo, e reprimo o grito.

Outros 

Esta é uma história infeliz e falsa

Eu estava tão feliz em minhas novas botas. Eu estava tão distante de casa para sentir o aroma do jardim da minha mãe. Flores apodrecendo e crescendo. Eu havia digitado “apodrescendo” mas apaguei porque erros de gramática não são admissíveis. Eu estava tentando me reinventar. Arrancar as peles mortas que cobriam as minhas espinhas e extrair os dentes podres da minha essência. Eles doíam e fediam. Eu tivera um sonho, um sonho estranho demais. Eu estava correndo numa floresta, e haviam pandas por todo o lado. E a floresta era na fazenda da minha avó. Por que eu digo avó, e não avô? Afinal pertencia aos dois. Talvez porque, eu não sei, fosse meu chamado feminino. Ou talvez fosse porque eu escutara histórias demais sobre como ela tratava a minha mãe de forma diferente. Ela sequer visitara minha velha mãe em seu leito de morte. Haviam flores mortas no jardim da minha mãe. Apesar da distância, eu podia sentir. Eu odiava quando eu errava uma palavra. E as flores, bom, elas fediam, como se fossem pessoas em pétalas e talos, e estivessem mortas. Por dentro, carne, sangue e tendões. Eu pisquei e então eu estava desmaiada em minha cama, uma garrafa de vinho ao meu lado, me fazendo a companhia que todos me negavam. O-BS-TÁ-CU-LO. Eu sorri para o teto ao sentir meus pés.

Ainda estava com as minhas botas novas.

Esta é uma história infeliz e falsa

Lovers and strangers

Eu a amava. Essa era uma verdade irrefutável. Dentre as loucuras que o mundo me trazia e todo o caos que me consumia numa vórtice, ela era a minha paz. Ao mesmo tempo eu tremia quando a via, minhas mãos hesitantes não sabiam como tocar algo tão bonito, tão puro. Ela tinha o sorriso de um anjo, os lábios mais lindos que eu já havia beijado. E eu amava cada parte do seu corpo. Eu a amava. Incondicionalmente.

Eu havia passado décadas perdida, me sentindo invisível, me sentindo uma estranha nesse mundo. E então ela estava lá, com sua sinceridade e sua alma iluminada. Agora eu estava deitada na minha cama pensando sobre como costumávamos conversar todos os dias, e de como ela ria quando eu ficava com ciúmes das suas antigas namoradas. Eu só queria tê-la por perto novamente. Mesmo que há quilômetros de distância. Eu queria sentir seu toque, deitar minha cabeça em seu ombro, fazer planos.

Mas agora era como se fôssemos estranhas. Não conversávamos, eu não sabia muito dela, ela não sabia muito de mim. Ela dizia que havia mudado. Ainda assim, eu não estava disposta a desistir dela. Nem que fosse para ser apenas sua amiga, nem que fosse para senti-la perto de mim novamente. Eu queria que ela soubesse que era amada, que era querida, que era uma alma peculiar e estranha, e na sua estranheza, linda. Eu amava a sua voz, o seu sotaque, a sua doçura.

E ela era uma das pessoas mais fortes que eu já conhecera. Criativa, especial de um jeito único, caridosa, altruísta, sincera.

Apesar de ela alegar ser bobeira, eu discordava. Ela não conseguia se enxergar, não conseguia ver o quanto era maravilhosa. Eu gostaria de emprestar os meus olhos a ela por um dia, só para que ela pudesse contemplar-se como ela realmente era. E eu desejava toda a felicidade do mundo para ela. Eu orava por ela em cada oportunidade. E me culpava por tê-la deixado ir. Por ser tão confusa e medrosa. Eu a amava. Eu queria cuidar dela. Nada nesse mundo iria me impedir; se eu não podia estar perto para segurar na sua mão, eu ligaria para ela, e conversaria com ela, e tentaria fazer com que ela se sentisse amada, e querida, e linda, porque era o que ela era.

Eu a amava. Sua dor me fazia chorar. Sua felicidade me fazia sorrir. Sua distância me doía. Mas agora eu compreendia. Ela só precisava de espaço. As pessoas mudam. Está tudo bem. Mas meu amor não mudara. E não mudaria. Disso eu tinha certeza.

Lovers and strangers

você

você não tira o meu ar. não é esse tipo de amor. eu não sei mais se estou louca ou enlouquecendo. eu não sei, acho que desde quando tudo isso começou eu nunca soube, como viver com a tua ausência, com o teu silêncio.  eu tive tantas noites de choro, tentando te encontrar em meus sonhos; tentando segurar a tua mão, te abraçar. as vezes você fugia. você sempre foge. eu não aguento mais, eu preciso te encontrar. eu preciso respirar o mesmo ar que você, para ao menos saber que você existe. eu não sei mais o que está acontecendo com a minha cabeça, mas não é comum. não é. não é ordinário. o que eu sinto por você dói.

você

Sinto saudade do tempo em que eu costumava correr pela casa e rir por tudo. Minha essência… será que a perdi? Eu costumava ser tão feliz… Oh, eu era feliz e não sabia. Eu sinto falta dessa ignorância também. Agora quero saber ser feliz e não o sou.

circulando a dor

Ela estava estacionada nos anos 90 escutando alguma banda ruim com uma batida contagiante o suficiente para fazer seus pés dançarem. Esperava. Como quem espera que a espiral vermelha dentro dos olhos pare de girar e desça do teto como alguma sorte de revelação. Doía. Porque tomava muitos remédios e era a única forma de não estar sempre a chorar, e embora não chorasse, ainda doía. Mas só assim conseguia escrever e ler e assistir os filmes que alugava.

As vezes você precisa chorar. É o que resta. O que resta do resto. Do resto das flores murchando; da novela na tv, desligada antes que chegasse ao fim; do amor que se transformou em ódio ou indiferença. As vezes você só precisa chorar. Ela estava trêmula, mesmo coberta dos pés a cabeça com uma manta grossa de lã. Um fio solto era a sua diversão. Puxava-o, mas não o bastante para que o fio crescesse e se desemaranhasse do entrelaçado onde estava.

A vida é esse peso as vezes, esse fardo que temos que desemaranhar fio a fio. Mas sua vida ultimamente parecia um monte de fios desencapados, e a cada tentativa, a cada vez em que ela teimava em colocar a sua mão ali, ela se machucava. Todos têm sua cota de tristeza, e ninguém tem a vida perfeita. Ainda assim, ela almejava por isso. Pelo sonho que criara na sua mente de 13 anos, quando ela ainda tinha treze anos.

Agora tinha 21 e estava tão perdida… Derramada aos pés da cruz no quarto chorava por misericórdia todas as noites. E é isso gradual? Digo, a felicidade. Ela chega aos poucos e não percebemos? Ela se faz de estranha? E depois morre? Para que tenhamos que procurar de novo, e de novo, e de novo? Ela esperava que não. Estava bem cansada. E só tinha 21 anos. Mas sentia como se a vida fosse se esvaindo a cada hora.

Ela não gostava de falar sobre coisas tristes o tempo inteiro, como as pessoas deduziam. Mas ela achava necessário falar sobre a tristeza e sobre as coisas que nos corroem por dentro, sobre o que dói, sobre a dor que não conseguimos apalpar e acariciar e curar com as nossas mãos. Que está longe, e ao mesmo tempo perto demais; que não vai embora no fim do dia. Ela achava importante falar sobre isso, e por isso estava sempre quieta, porque as pessoas estavam sempre falando sobre esperança e amor, e sobre… e rindo. E ela estava tão triste, que parecia que o seu coração iria se desmanchar.

E é isso. Era tudo. O que ela escrevera nas paredes da memória já não fazia mais sentido. Ela doía. E agonizava. Era só.

 

circulando a dor