Sobre não ser interessante para o mundo


TALVEZ EU NÃO FOSSE INTERESSANTE. Talvez eu fosse terrivelmente chata, inconveniente, repetitiva e deslocada demais para encarar a vida sóbria. Talvez eu nunca fosse melhorar ou conseguir chegar “lá”. “Lá” seria o meu ponto de encontro comigo mesma. A minha catarse perfeita sem precisar de crises de choro ou remédios. Seria o meu lugar feliz. 

Eu estava cansada de esperar por esse lugar feliz. Eu passava os dias no Facebook observando as pessoas postarem fotos das suas vidas que pareciam tão melhores que a minha. E vez ou outra alguém tão triste como eu, mas popular. Então eu e minhas postagens depressivas passavam batido, eu passava ilesa. Ao menos metaforicamente. Porque, a realidade era que eu estava cheia de machucados e marcas de empurrões. 

As pessoas me empurravam quando queriam chegar no ponto de ônibus, me empurravam porque eu estava no caminho delas e elas estavam a caminho da faculdade, ou da escola, ou do cinema. E eu estava estagnada com uma corrente de 100 toneladas me prendendo a uma âncora que a cada milésimo de segundo se aproximava mais do despinhadeiro do qual eu estava fugindo. Elas me ameaçavam com pontapés e chutes se eu ameaçasse chorar. E nada disso precisava de esforço físico. Não! Bastavam algumas palavras.

Eu era frágil demais para esse mundo. Pateticamente frágil. Pateticamente muda. Estagnada, presa, literalmente uma presa da vida. Então, talvez eu não fosse interessante. Eu era só uma otária cheia de livros e referências e completamente fora do padrão para ser no mínimo cogitada como alguém legal. Essa era eu. Ou ao menos era como eu me via.

E agora eu estava ali, pensando em como eu deveria dar um jeito na minha vida. Virá-la do avesso ou tentar algo novo, fazer alguma coisa e sair daquele estágio de letargia onde eu estava! Eu não aguentava mais. Eu estava batendo a minha cabeça na parede repetitivamente como alguém que precisava ser exorcizada dos seus demônios. Os meus estavam tentando me comer viva. 

Eu estava tentada a deixar. Afinal de contas eu não era nada de bom para o mundo. Eu era como una concha repleta de merda. E minha cabeça estava começando a doer. 

Sobre não ser interessante para o mundo

Sobre você e a dor insistente.

Eu poderia estar cercada por monstros. Mas lá estava você transgredindo a regra e fazendo valer a exceção. Com seus olhos grandes e lábios que poderiam me fazer sentir como se eu estivesse flutuando entre nuvens carregadas de chuva. Lá estava você, com seus tênis surrados e pernas bambas, e sorrisos, que eu sabia, não eram sinceros; cambaleando pela vida com os olhos cansados e a mente distante, em outra atmosfera ou planeta, alguma pequena casa que você mesma criou. E isso te mantinha sã.

Eu ofereci um cigarro, mas você disse que odiava drogas. Ainda assim bebia a goles fartos um copo cheio de conhaque, e ria quando alguém contava uma piada ou algo que sugerisse que deveríamos rir. Você seguia todas as regras, todos os protocolos de normatividade, mas isso, pelo que eu percebia, te deixava com os olhos vermelhos e inchados pela manhã e com dores estomacais horríveis.

Seu corpo esguio ia perdendo medidas até ser apenas um reflexo do que você fora um dia. Você parecia doente, triste e desnorteada. Mas isso não a impedia de correr para a auto-destruição. Porque você queria ser perfeita, mas perfeição não existe neste mundo, é apenas algo inventado, uma forma de fugirmos de nós mesmos. E você caminhava nesse trilho, e lá longe vinha um trem, mas você não corria ou se sobressaltava. Apenas andava em direção ao seu próprio fim.

Eu disse: você precisa de ajuda. Você disse: vai se foder! Seu pescoço estralava quando você o alongava, como ossos velhos e enferrujados e nervos doloridos. Você doía, mas se recusava a acreditar nisso. Continuava seu caminho, lendo quando não estava bêbada demais e escrevendo nas noites em claro.

Eu poderia estar cercada por monstros… levando em conta o quanto meu coração doía quando eu te olhava, eu deveria estar cercada por monstros. “Você leva tudo muito a sério”, você dizia. “Nunca fomos para sempre.” Não, nunca fomos. A reciprocidade nunca existiu, certo? E eu cansei de escrever sobre você porque minha cabeça dói e eu fico cada vez mais triste, existe esse furacão dentro de mim e você rodopia dentro dele enquanto eu tento te salvar, e não consigo, porque não posso. Eu cansei de escrever sobre você. Mas continuo te querendo.

Sobre você e a dor insistente.

Ela estava sentada ao Sol tentando perguntar a ele se ela era digna de pena por amá-lo e ser platônico. Mas no fundo ela sabia que amor não é motivo para ter pena. É algo mágico. Como olhar as estrelas no céu e imaginar que são confetes numa festa de aniversário. Ou vice-vice-versa. 

_E então?

_Bom, para ser sincero um pouco patético.

_E se nós beijássemos?

_Não podemos nos beijar.

_Por que?

_Por que? Eu tenho namorada, lembra?

Os olhos dela marejaram. Ela levantou-se, respirou fundo e disse: “Preciso ir.” E foi. Ao longo do caminho chorava. E chorava porque amava e amava tanto que doía, e não havia nenhuma recíproca. Era muito doloroso. Mas ela se contia.

Até que ela, cegada pelas lágrimas, tropeçou e caiu. E então aproveitou o ensejo e ao levantar-se descambou num choro forte e triste, com soluços e mais tremendo. E assim ficou por longos minutos. Era fim de tarde e a praça estava cheia. Mas não haviam olhares que

As flores mortas na piscina

Luiza ajoelhou-se. No tapete do quarto. Mas antes de dar início a sua pequena oração, ela plugou o carregador do celular na tomada. Então, ali, nua de corpo e alma, fechou os olhos e pediu. 

“Deus, me ajude a entender o que está acontecendo.” E levantou-se. Parecia que tudo estava perdido e nunca seria encontrado novamente. Parecia que o medo e a saudade eram mais fortes do que sua sensatez e razão. Mas ela engoliu o choro, que já derramara deitada nua no tapete. E seguiu para o banheiro.

Erik Satie tocava no seu computador. Sinfonias melancólicas e que faziam com que desejasse uma garrafa de vinho e companhia. Quem no mundo escuta Erik Satie enquanto conversa sobre… sobre qualquer coisa? Ela queria alguém para conversar sobre como os gatos dormem engraçado e como parece mágico à noite…todas as estrelas no céu. E todos os desejos na ponta da língua. 

Luiza deixou que a água gelada escorresse pelo seu corpo, e de olhos fechadoa fingiu que se afogava em um imenso oceano, e isso lhe trouxe paz de espírito. 

Depois, mirando os próprios olhos no espelho percebeu uma faísca de coragem. Mas que ainda precisava a ser atiçada. E viu também dor, e medo, e perplexidade. Mas não pensou sobre isso. Não queria. Não podia ou choraria e não pararia mais. Então ela apenas respirou fundo, e cambaleou até o quarto. 

Hidratou o rosto com uma máscara facial, massacrou os pés cansados,  contentou-se com a solidão e sorriu em eio ao silêncio apenas rompido delicadamente pela música suave que vinha da sala. 

E então deitou-se. Mas manteve os olhos abertos. Até que o sono a acolheu e ela sonhou. Um sonho tão íntimo e bonito que não se pode descrever.  Efeito da música ou do banho, não se sabe. Mas Luiza dormiu, em paz.

As flores mortas na piscina

O intenso dizer do adeus

Em que imensa loucura desembarcou nossa mente, a ponto de questionarmos se há em nós algum traço dos amantes deixados para trás.  A ponto de perguntarmos a nós mesmos se sentir, ou não sentir, nos faz loucos. Se o que nos faz loucos é o hiato ou o crescendo de um sentimento que está dentro de nós,  enterrado, desde criança. Ou se somos os únicos. E nunca somos. Há sempre outros vãos e outras pernas a embarcarem nos fios trançados pela vida ao longo do caminho. Não somos os únicos. Mas estamos sozinhos. 
E chamamos por liberdade, por paz, por ódio, por amor. Mas esquecemos do que é sentir a mente latejar, com o fogo da memória acesso, juntos de mãos dadas o medo e a tristeza de não poder mudar o que um dia foi feito com mãos sujas de sangue. Há coisas que não podem ser. Mas são. Quem é o objeto parado ao lado do camburão e o que a polícia estava fazendo ao desprezar quem nasceu em tão fino leito?

Há coisas que você destrói com as próprias mãos. Há coisas… Há coisas… Há.

O intenso dizer do adeus

aBOUT SADness and REality

 

Havia algo de triste em Marina. Em seus trejeitos e meneios de cabeça. Ela dançava diferente, com suas meias três quartos e coturnos desgastados, ela movia-se como um fantasma, balançando seu corpo em compasso com a música. Mas não saia do lugar. Nunca, nem na vida. Estava estagnada e não conseguia chorar. Se chorasse ao menos navegaria na enxurrada de lágrimas e iria para longe dali. Mas ela só sabia dançar. E tropeçar. E doer.

aBOUT SADness and REality