Outros 

Há um vão enorme entre nós. Onde eu temo perder meus pés revelados para o próximo trem. Há pequenas tristezas enterradas no chão de cascalho do quintal, onde eu também enterrei meu amor por você, que era algo tão bonito. Mas que nunca florecia na primavera. Estranho, não é? Flores deveriam obedecer à lei do universo. Mas talvez seja meu carma.

Nunca fui uma boa garota. “Boa garota”. Como dizem por aí, sou torta. Por dentro e por fora. Tenho pernas cambotas e um rosto nada simétrico. E uma alma mazelada por anos a fio a tentar ajustar-me a este mundo. Gosto do incomum, e gosto do que é diferente, do que é estranho. O normal me pareceu sempre confortável e chato demais, o oposto da minha essência. E eu sempre tive esse medo de… terminar como os meus pais. E quando falo isso eu fico triste por eles. Por terem feito tantos sacrifícios para terem uma família normal e perfeita, por terem deixado de lado sonhos e anseios para que eu conseguisse seguir com os meus.

Respiro fundo. Há algo em minha garganta também. Rasgando-a. Se reforçando para subir pela minha traquéia e desmaiar junto a todos os outros dejetos desagradáveis no solo. Eu respiro fundo novamente. 

“Eu grito comigo mesma quando não há ninguém mais para brigar. Eu não perco, não ganho. Se estou errado, eu estou meio certa.”
Estou bem. De repente estou chorando velhas mágoas e rindo do passado, mas bem. Como se eu tivesse certeza de que se eu morresse agora mesmo, iria para um plano melhor. E é em tudo o que acredito. Que existe algo além disso tudo. De todo sofrimento e de todos os gritos cortando o silêncio como uma faca amolada a cortar a carne. Porque, se eu não acreditar nisso, como conseguir seguir?

O vão ainda está lá. Mas eu mantenho meus pés afastados. Ainda tenho medo. Ainda dói da última vez que tive que costurá-los. Agora mal posso andar. Então eu só respiro fundo, e reprimo o grito.

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